Trechos resgatados do diário do Dr. Hans Schucrutz
15 de Fevereiro
Minhas viagens me trouxeram até a Suécia, onde repouso depois de minhas malfadadas expedições em busca de provas para os eventos descritos nas antigas lendas sobre o "Apocalipse das Borboletas". Reitero, como descrito no registro anterior, que a falta de apoio de meus pares acadêmicos foi a principal causa para o fracasso, visto que minha crença inabalável no acontecimento é motivo de piada.
Enfim, tendo isso como causa, acabei por ficar nesse país de clima agradavelmente gélido. Acabei por conhecer alguns interessantes residentes e, mais importante, um interessantíssimo bar conhecido por vender a vodca mais forte de toda Escandinávia. Tenho passado alguns dias e noites [que nessa estação são praticamente indistinguíveis] nesse simples estabelecimento, ouvindo e contando histórias.
5 de Março
Depois de certo tempo frequentando o Lundgren's, taberna registrada no escrito anterior, e de já ter todos os benefícios relativos à posição de cliente regular, contei a história de minhas expedições atrás do Apocalipse. Pela primeira vez em tempos, não recebi nenhuma forma de chacota ou risos implícitos ou explícitos. Ninguém me olhou com condescendência ou questionou sobre abusos na infância ou uso de entorpecentes. Não me chamaram de louco com diploma, não tentaram cassar minha licença. Todos me olharam impressionados. Aliás, não todos; a atendente e proprietária da casa, Srta. Johansson, pareceu-me incomodada mas não por supostas idiotices que estava dizendo. Cada detalhe que eu revelava sobre a história ela me olhava como se eu tivesse falado algo que não devia.
Ao terminar meu relato um de meus amigos locais, Frey Hein-Hagen, começou a falar que aquilo que eu havia descoberto era apenas superficial, mas foi interrompido por uma sessão grupal de tosses fingidas e canecas sendo derrubadas das mesas de propósito. A Srta. Johansson o escoltou para fora do bar dizendo que ele já tinha bebido demais, embora tivesse tomado apenas suco de tomate. Achei todas aquelas atitudes estranhas, mas um viajante experiente como eu tem que saber a hora de indagar sobre algo e a hora de calar-se. Isso foi há 4 dias atrás. Pela cidade agora sou alvo de olhares desconfiados e sussurros depois que eu passo. Será que, ao contrário do que me pareceu anteriormente, não levaram minhas crenças ao ridículo? Frey não apareceu mais no bar, e ninguém sabe me responder por onde ele anda.
Levei esta situação até onde pude. Ontem esperei todos saírem e, quando estávamos sós, resolvi interrogar a Srta. Johansson. Tomando um gole de coragem [que, estranhamente, pareceu vodca sueca] perguntei o que ela sabia sobre o assunto citado. Ela riu nervosamente e negou qualquer conhecimento, desde o paradeiro de Frey até borboletas sugadoras de cérebro, mas de forma pouco convincente.
Eu lhe ofereci dinheiro, ameacei, implorei e até tentei seduzi-la, mas meus encantos são por demais refinados para uma pessoa de tão baixo patamar intelectual, ao que parece. Saí do bar deixando a promessa de voltar.
Cheguei em meu quarto de hotel e encontrei-o completamente revirado. Nada foi roubado, mas encontrei um bilhete. Li, guardei-o no bolso, fui até a recepção e eles me disseram que nada foi visto, mas que talvez as câmeras tivessem gravado os responsáveis. Suspeito de algo incomum acontecendo, mas admito que não possuo evidências conclusivas.
6 de Março
Escrevo isso de dentro de um quarto no qual sou mantido refém. Não faço ideia da razão pela qual me capturaram, tampouco qual motivo os levou a me chutarem em diversos locais de meu corpo. Entraram em meu quarto na madrugada e ordenaram a rendição, algo que fiz sem sequer pestanejar. Talvez eu tenha gritado, mas isso é procedimento padrão nessas ocasiões, não? E me debati, apenas para compor a cena que se espera ao prender um luminar da sapiência como eu, mas nada fiz além disso. Que culpa posso ter se acertei a canela de um dos sequestradores enquanto segurava no colarinho do outro implorando em nome de minha mulher e filhos [não que eu os tenha, obviamente, é apenas mais um componente cênico necessário para compor a dramaticidade do momento]? Culpa tem eles de, apesar de arrombarem a porta, terem sido tão pacíficos em seus pedidos gentis para que eu os acompanhasse. Como não sabem como lidar com um tão ilustre prisioneiro?
De qualquer forma, cá estou eu escrevendo neste caderno que, em minha epifania involuntária ao comprá-lo escolhi, é pequeno. Digo que essa é uma vantagem pois ocultá-lo não foi uma tarefa difícil, ainda que em uma cavidade corporal que eu prefiro omitir do relato.
Já consegui entender, de uma maneira trôpega, que vão me interrogar. Sobre o que? Resta-me cuidar de meus ferimentos e uma vez mais ocultar esse caderno, para que não o peguem em revistas.
7 de Março
Admito, estou intrigado com o comportamento desses sequestradores. Novamente, fui tratado com uma cortesia completamente incabível na atual circunstância. Fui levado sem qualquer tipo de algema ou corda para o local, tive um jantar farto e variado [com uma única crítica, o pato com laranja estava seco demais, fato esse que fiz questão de levar ao chef] e sentei-me numa confortável poltrona de couro para responder perguntas. Após berrar e dizer que apenas sobre meu cadáver teriam qualquer resposta, tive como reação apenas pedidos para que eu me acalmasse e sorrisos simpáticos.
Que bando de amadores! Tive que novamente tomar a iniciativa, tentando agarrar meu interlocutor desconhecido [nota: esperar ele se apresentar da próxima vez] e dizer que nada sabia [ainda que só tivessem perguntado meu nome, se não me falha a memória]. Fui agredido covardemente, pelas costas, com um tapa que ainda deve estar marcado próximo ao refúgio deste caderno. Foi me atirada uma cópia de meu artigo, questionada qual a razão de minha pesquisa, qual me interesse e, por fim, o porquê eu queria impedir o Holocausto das Asas Leves. Essa última questão manteve-me absorto por uns instantes, de olhar fixo no cálice de Cognac em minhas mãos. Um questionamento absurdo, obviamente, mas algo nessa sentença emitida parecia não fazer sentido. Apenas após ser levado de volta à minha cela, consegui entender o que me incomodava: "Holocausto das Asas Leves" não era um bom nome para o evento, por isso que o preteri em favor de "Apocalipse das Borboletas". Como aquele homem tão bem apessoado teria escolhido o outro? Não me recordo de tê-lo escrito uma vez sequer, de tão abominável que me pareceu, então que razão o faria preferir o outro?
Enfim, deixarei o questionamento de lado e deitarei-me em minha cama de prisão, com lençóis de algodão egípcio de 550 fios e travesseiros de pluma de ganso das Antilhas. Nunca pensei que seria tão difícil manter-me são sob tão severas condições! Ao me puxarem fora da sala de interrogatório, enquanto fazia meu mise-en-scéne, tive a impressão de ver uma colossal asa azul celeste entrando pela janela. Aliás, embora não tenha descrito, ao ser carregado para meu cárcere atual, tive a mesma impressão na mesma sala. Do que se trata? Devo investigar mais a fundo, e para isso prolongarei minha estadia aqui. Decerto será fácil, afinal quem poderia rivalizar com meus artifícios? Repousarei agora e amanhã certamente terei novidades para relatar.
domingo, 29 de dezembro de 2013
quinta-feira, 19 de dezembro de 2013
Um "até mais"
Houve o momento de se dizer;
Então o suspense do ar preso nos pulmões
Sem se tornar vocal
Um monte de propostas
Para se dizer
Dentes cerrados, mente aberta
Sentimentos complexos para expor
Palavras difíceis para descrever
Muito a dizer, pouco tempo
Decisão em breve instante
Na velocidade de um pensamento
Que desaparece na indecisão
E rói por dentro
E remói em silêncio
Não completa em fundação
Agora só uma ideia
Mais forte, intensa
Uma saudade quase plena
Felicidade, apenas
Amizade que faz falta
Daquela que só acontece de tempos
Em tempos
O sorriso não esconde
Mas a palavra disfarça
Mantém um pequeno controle
Com um discreto olhar
E a curta ideia
"Muito bom te ver, hein"
Então o suspense do ar preso nos pulmões
Sem se tornar vocal
Um monte de propostas
Para se dizer
Dentes cerrados, mente aberta
Sentimentos complexos para expor
Palavras difíceis para descrever
Muito a dizer, pouco tempo
Decisão em breve instante
Na velocidade de um pensamento
Que desaparece na indecisão
E rói por dentro
E remói em silêncio
Não completa em fundação
Agora só uma ideia
Mais forte, intensa
Uma saudade quase plena
Felicidade, apenas
Amizade que faz falta
Daquela que só acontece de tempos
Em tempos
O sorriso não esconde
Mas a palavra disfarça
Mantém um pequeno controle
Com um discreto olhar
E a curta ideia
"Muito bom te ver, hein"
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
Hollow
As vezes passava o dia sem falar com ninguém. Guardava para si seus pensamentos, o que causava um tumulto em sua cabeça. As palavras não emitidas brigavam entre si, buscando a supremacia e ascensão na enorme fila que se formava para sair.
Fora de sua mente, o mundo passava. E nada ele falava. Não que se tratasse de um tímido, tampouco era uma pessoa sem opinião. Muito pelo contrário, o que ele mais tinha era ideias sobre o mundo ao redor. Sobre a catraca do ônibus. Sobre a música do Badfinger. Sobre a forma de gelo que ninguém nunca enche. Sobre a política externa do Cazaquistão. Mas todas elas eram presas por seus dentes, e por mais que sua língua tentasse expressá-los eles morriam ainda em suas entranhas.
Talvez não fosse o melhor jeito de viver; toda a complexidade humana, ainda que artificial, produzida por reações de elementos químicos e impulsos elétricos que se fazem acreditar por coisas sérias, não foi feita para ser aprisionada. A linguagem provavelmente se desenvolvera por isso: para que os demônios internos de cada pessoa pudessem ser exorcizados de forma simples. A inexpressão nos força a enfrentar o pior dos inimigos em batalha, o eu mais verdadeiro e inatingível. Essa luta desmonta por dentro, revolvendo até a parte mais profunda do que nos faz humanos. Pois sim, o verdadeiro sentido de humanidade só é atingido após nos expressarmos, após purgar a alma de seus demônios e renascer em sentido, ideia e espírito.
Agora, mais ideias se formavam sem sair de dentro dele. Uma das possíveis razões era a falta de platéia. De que vale dizer o que não haverá ninguém para ouvir? Ainda que mais pessoas estivessem em volta, não necessariamente elas estariam ali para ouvir algo. Ainda que estivesse conversando com alguém, nada indica que ele seria ouvido. Diz-se também que a comunicação só termina na mente do receptor, com ele completando o que foi emitido com sua própria bagagem e visões. Então de que vale emitir ideias que permanecerão incompletas? De enviar mensagens trôpegas, ocas e perdidas?
Mas não era essa a razão.
A razão, pura e simplesmente, era porque ele tinha medo. Apenas assim.
Fora de sua mente, o mundo passava. E nada ele falava. Não que se tratasse de um tímido, tampouco era uma pessoa sem opinião. Muito pelo contrário, o que ele mais tinha era ideias sobre o mundo ao redor. Sobre a catraca do ônibus. Sobre a música do Badfinger. Sobre a forma de gelo que ninguém nunca enche. Sobre a política externa do Cazaquistão. Mas todas elas eram presas por seus dentes, e por mais que sua língua tentasse expressá-los eles morriam ainda em suas entranhas.
Talvez não fosse o melhor jeito de viver; toda a complexidade humana, ainda que artificial, produzida por reações de elementos químicos e impulsos elétricos que se fazem acreditar por coisas sérias, não foi feita para ser aprisionada. A linguagem provavelmente se desenvolvera por isso: para que os demônios internos de cada pessoa pudessem ser exorcizados de forma simples. A inexpressão nos força a enfrentar o pior dos inimigos em batalha, o eu mais verdadeiro e inatingível. Essa luta desmonta por dentro, revolvendo até a parte mais profunda do que nos faz humanos. Pois sim, o verdadeiro sentido de humanidade só é atingido após nos expressarmos, após purgar a alma de seus demônios e renascer em sentido, ideia e espírito.
Agora, mais ideias se formavam sem sair de dentro dele. Uma das possíveis razões era a falta de platéia. De que vale dizer o que não haverá ninguém para ouvir? Ainda que mais pessoas estivessem em volta, não necessariamente elas estariam ali para ouvir algo. Ainda que estivesse conversando com alguém, nada indica que ele seria ouvido. Diz-se também que a comunicação só termina na mente do receptor, com ele completando o que foi emitido com sua própria bagagem e visões. Então de que vale emitir ideias que permanecerão incompletas? De enviar mensagens trôpegas, ocas e perdidas?
Mas não era essa a razão.
A razão, pura e simplesmente, era porque ele tinha medo. Apenas assim.
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
May the road rise...
Ao acordar em um bem passar de dias esquecidos
Agora sim, tudo faz sentido
O caminho aberto na névoa está concluso
Ela levantou-se, lavou-se e olhou-se
Havia algo diferente nesse espelho há alguns segundos
Sem mais remorso, sem mais arrependimento
Sem mais culpa, nem quem culpar
Você por você agora
Assim chega,
De se prender a rochas instáveis
Achar dificuldade em algo que merecia ser simples
Ver a felicidade alheia
De não ter alguém que se importe
Como aquela vez em que contamos uma história
Ou de acreditar na fábula de duas pessoas juntas
Ainda te magoa a injustiça
Permanece
Mas naquele transporte lotado
Na rotina insuportável
Nos dias que se passam
Foram se os momentos de pesar
Ela não se arrepende
Não é exatamente feliz
Mas afinal de contas, o que é?
Relâmpagos não caem duas vezes no mesmo lugar
É hora de voltar pra casa
Chamaram aquela garota e ela, obediente como qualquer anjo,
Foi
sábado, 22 de setembro de 2012
Dia desses
- Ah, mas você pode tentar de novo.
Disse aquilo com uma cara tão inocente que me desanimou de responder. Eu tinha discutido a tarde inteira, não aguentava mais. Resolvi deixar passar.
- Ih olha lá.. você fez errado de novo. Bom tudo bem, vamos tentar outra vez.
A mesma cara inocente, eu novamente tentando manter a paz interior. Não vale a pena, já me estresso demais, essas pessoas não entendem o que eu passo.
- Poxa, de novo! Tô achando que você não tá se esforçando, assim fica difícil né? Vamos de novo.
Agora sorrio meu sorriso mais amarelo, mostrando os dentes nervosamente. Tomara que ela entenda agora meu sinal de que isso está me irritando. Não bastasse o trânsito, a chuva, o chefe... É tão difícil assim entender o meu lado? Tô fazendo de boa vontade algo que ninguém quis fazer, pra que ficar exigindo mais?
- Aiai...Quer deixar quieto? Não precisa fazer se não quiser, a gente tenta dar outro jeito...
Tomo isso como ofensa pessoal. E como um desafio.
- Mas não precisa, sério... Você pode ficar tranquilo, eu me viro depois
Não, não e não. Isso é a mesma coisa que esfregar minha inaptidão na minha cara. Eu posso fazer isso sem problemas, não tá vendo no meu sorriso largo e confiante?
Eu podia ter dito isso, mas novamente deixo estar. Recuso elegantemente a porta dos fundos mostrada, faço um gesto magnânimo de deixa comigo e volto à tarefa requisitada. Contenho um riso matreiro pelo fato dela me subestimar. Todos fazem isso, mas eu sou mais. Claro que não mostro isso o tempo todo, não há a menor necessidade disso, logo todos acham que opero nivelado para baixo. Não podem estar mais enganados.
- Hmm agora parece que está indo bem... Isso, continua, vai... Putz! Bom, essa foi quase lá. Vai tentar de novo?
Claro que vou. As pessoas não estão acostumadas a ver gente que tem potencial pra fazer mais e mais vezes, assim como eu, então acham que poucos fracassos vão deter qualquer um. Idiotas. O suor em meu rosto mostra como a persistência toma forma. Levanto, respiro, dou uma risada irônica e espero que ela pesque a dica.
- Olha só como você está, acho que vou deixar de me aproveitar de você.
Mas ela não pesca, óbvio.
- Tanto suor e cansaço assim, vai acabar passando mal. E não precisa de tudo isso, eu me arrumo depois...
Agora lhe mostro um olhar duro, mas determinado. Eu vou fazer de novo sim, quer você queira ou não. Quem sabe quando parar sou eu, não se atreva a discordar.
- Tá tudo bem? Sei lá, por um momento pareceu que você estava passando mal.
Deuses..
- Ahn, de novo? Mesmo? Olha, não precisa...
Interrompo com um gesto de basta, e volto à minha posição de labuta. O suor desce mais forte por meu rosto, mas isso só vai fazer minha vitória mais doce. E quero ouvir as desculpas por me subestimar saindo de sua boca, o arrependimento ao qual serei superior e dispensarei com elegância e garbo. Mal posso esperar, tudo ao alcance de minhas mãos. Heh.
- Agora vai hein, só mais um pouco...
Calada, não tá vendo meu esforço aqui?
- Mais um pouquinho...
Ô cacete... Será que se eu esmagar a garganta dela ela fica quieta?
- Isso, isso, vai, vai!
Chega porra, fica quieta! Quando isso terminar eu vou bater nela. Bem forte, no meio da cara dela. Tá mais do que merecendo, não tem a mínima noção, não é possível. Não basta tudo o que eu passo, tenho que aguentar a cidadã berrando na minha orelha. Um tapa, direto, na cara. Só isso.
- Isso, finalmente! Puxa, não é que você conseguiu mesmo? Pensei que você não ia trocar esse pneu nunca!
Largo a chave de roda no chão. Lugar errado. Tinha que ter enfiado na cabeça dela.
- Tava quase chamando o guincho, tava tão difícil pra você! Bem, agora tá trocado, não estraguei minhas unhas e tá tudo certo! Obrigado viu! Agora deixa eu ir que eu tô atrasadérrima!
Pensei em gritar pra ela esperar, fazer ela ouvir poucas e boas e agradecer meu esforço de forma mais justa. Mas deixa pra lá, já me estresso com tanta coisa... deixa estar. Podia ter me dado seu telefone, pelo menos, até que era bonitinha, mas só isso também viu...
Disse aquilo com uma cara tão inocente que me desanimou de responder. Eu tinha discutido a tarde inteira, não aguentava mais. Resolvi deixar passar.
- Ih olha lá.. você fez errado de novo. Bom tudo bem, vamos tentar outra vez.
A mesma cara inocente, eu novamente tentando manter a paz interior. Não vale a pena, já me estresso demais, essas pessoas não entendem o que eu passo.
- Poxa, de novo! Tô achando que você não tá se esforçando, assim fica difícil né? Vamos de novo.
Agora sorrio meu sorriso mais amarelo, mostrando os dentes nervosamente. Tomara que ela entenda agora meu sinal de que isso está me irritando. Não bastasse o trânsito, a chuva, o chefe... É tão difícil assim entender o meu lado? Tô fazendo de boa vontade algo que ninguém quis fazer, pra que ficar exigindo mais?
- Aiai...Quer deixar quieto? Não precisa fazer se não quiser, a gente tenta dar outro jeito...
Tomo isso como ofensa pessoal. E como um desafio.
- Mas não precisa, sério... Você pode ficar tranquilo, eu me viro depois
Não, não e não. Isso é a mesma coisa que esfregar minha inaptidão na minha cara. Eu posso fazer isso sem problemas, não tá vendo no meu sorriso largo e confiante?
Eu podia ter dito isso, mas novamente deixo estar. Recuso elegantemente a porta dos fundos mostrada, faço um gesto magnânimo de deixa comigo e volto à tarefa requisitada. Contenho um riso matreiro pelo fato dela me subestimar. Todos fazem isso, mas eu sou mais. Claro que não mostro isso o tempo todo, não há a menor necessidade disso, logo todos acham que opero nivelado para baixo. Não podem estar mais enganados.
- Hmm agora parece que está indo bem... Isso, continua, vai... Putz! Bom, essa foi quase lá. Vai tentar de novo?
Claro que vou. As pessoas não estão acostumadas a ver gente que tem potencial pra fazer mais e mais vezes, assim como eu, então acham que poucos fracassos vão deter qualquer um. Idiotas. O suor em meu rosto mostra como a persistência toma forma. Levanto, respiro, dou uma risada irônica e espero que ela pesque a dica.
- Olha só como você está, acho que vou deixar de me aproveitar de você.
Mas ela não pesca, óbvio.
- Tanto suor e cansaço assim, vai acabar passando mal. E não precisa de tudo isso, eu me arrumo depois...
Agora lhe mostro um olhar duro, mas determinado. Eu vou fazer de novo sim, quer você queira ou não. Quem sabe quando parar sou eu, não se atreva a discordar.
- Tá tudo bem? Sei lá, por um momento pareceu que você estava passando mal.
Deuses..
- Ahn, de novo? Mesmo? Olha, não precisa...
Interrompo com um gesto de basta, e volto à minha posição de labuta. O suor desce mais forte por meu rosto, mas isso só vai fazer minha vitória mais doce. E quero ouvir as desculpas por me subestimar saindo de sua boca, o arrependimento ao qual serei superior e dispensarei com elegância e garbo. Mal posso esperar, tudo ao alcance de minhas mãos. Heh.
- Agora vai hein, só mais um pouco...
Calada, não tá vendo meu esforço aqui?
- Mais um pouquinho...
Ô cacete... Será que se eu esmagar a garganta dela ela fica quieta?
- Isso, isso, vai, vai!
Chega porra, fica quieta! Quando isso terminar eu vou bater nela. Bem forte, no meio da cara dela. Tá mais do que merecendo, não tem a mínima noção, não é possível. Não basta tudo o que eu passo, tenho que aguentar a cidadã berrando na minha orelha. Um tapa, direto, na cara. Só isso.
- Isso, finalmente! Puxa, não é que você conseguiu mesmo? Pensei que você não ia trocar esse pneu nunca!
Largo a chave de roda no chão. Lugar errado. Tinha que ter enfiado na cabeça dela.
- Tava quase chamando o guincho, tava tão difícil pra você! Bem, agora tá trocado, não estraguei minhas unhas e tá tudo certo! Obrigado viu! Agora deixa eu ir que eu tô atrasadérrima!
Pensei em gritar pra ela esperar, fazer ela ouvir poucas e boas e agradecer meu esforço de forma mais justa. Mas deixa pra lá, já me estresso com tanta coisa... deixa estar. Podia ter me dado seu telefone, pelo menos, até que era bonitinha, mas só isso também viu...
L'acqua
E nunca mais houve um sorriso tão enigmático
Sumiu junto com as pegadas deixadas na areia
Foi-se com as nuvens de um dia antigo
Ainda lembro, ainda sei que isso aconteceu
Mas não como uma certeza factual
Parece mais algo visto através de prismas distorcidos
A cada olhada se torna menos concreto
E dependente totalmente de como a luz incide
Há vezes mais sombrias
Há vezes mais bonitas
Há vezes, apenas
Estive lá, numa memória etérea
Na dança de minutos e segundos
Cada passo desses gravados intangivelmente
Mas que volta em ciclos
E eu admito, há vezes que não acredito
É tão fugaz, fácil de sumir
Bem mais fácil que desaparecer
Mas que uma música, uma palavra traz de volta
Vai na frente, eu ainda tenho coisas pra fazer aqui
E de resto
É assustador, não sei bem o que estou fazendo ou aonde estou indo
Sei que tenho que lembrar
Por isso, hoje, sentei numa pedra e lembrei.
Sumiu junto com as pegadas deixadas na areia
Foi-se com as nuvens de um dia antigo
Ainda lembro, ainda sei que isso aconteceu
Mas não como uma certeza factual
Parece mais algo visto através de prismas distorcidos
A cada olhada se torna menos concreto
E dependente totalmente de como a luz incide
Há vezes mais sombrias
Há vezes mais bonitas
Há vezes, apenas
Estive lá, numa memória etérea
Na dança de minutos e segundos
Cada passo desses gravados intangivelmente
Mas que volta em ciclos
E eu admito, há vezes que não acredito
É tão fugaz, fácil de sumir
Bem mais fácil que desaparecer
Mas que uma música, uma palavra traz de volta
Vai na frente, eu ainda tenho coisas pra fazer aqui
E de resto
É assustador, não sei bem o que estou fazendo ou aonde estou indo
Sei que tenho que lembrar
Por isso, hoje, sentei numa pedra e lembrei.
quinta-feira, 26 de julho de 2012
Há um ano
Há um ano, nada parecia mais simples. Objetivos vêm e vão, os dias passam longamente e quando você vê, os dias se fecharam em uma quantia estabelecida por alguém, transportando as passagens que você estabeleceu para o passado.
Há um ano, suas esperanças eram as mesmas, ainda que em formas diferentes. Sorrindo, você disse que poderia tudo ser diferente, e de certa maneira foi. A ação acontece, a reação desnorteia e as forças se reagrupam para um novo embate.
Há um ano havia um clima diferente no ar. Não definitivamente melhor ou pior, mas os sorrisos pareciam diferentes, suas companhias eram outras e os sons tinham outros significados. Faltava, por mais paradoxal que seja, o excesso de julgamento que também não há hoje, mas que talvez seja o que deixava tudo tão livre de obrigações. Ou assim parecia.
Há um ano, ocorreu algo. Uma fagulha que percorreu seus pensamentos, que transformou seus conceitos e que te trouxe novas certezas para velhas dúvidas. Em um lugar só seu, você ainda guarda seu direito de novamente alterá-las quando novas situações aparecerem e demolirem o que você construiu. Penas e condenações somem ao se encaixar em novos paradigmas. Novas culpas surgiram para equilibrar a balança baseada nas novas condições que te perdoariam em uma gama mais ampla de situações, e novos pesos te esmagam a cada passo em falso. Exatamente como já havia acontecido.
Há um ano, você se entregou à fortuna. Durante algum tempo, não fazia diferença no que acontecia ou iria acontecer. Com um misto de indignação e raiva, de luxúria e ultraje, você julgou certo extrair apenas o que lhe fazia feliz, ainda que momentaneamente. Não durou muito, é verdade, pois não há hedonismo que traga alegrias por grandes períodos. Você achou justo, mesmo sem saber em que essa justiça se baseou, e achou justo também não se sentir mais assim. Mas fechado o ciclo, novamente a fortuna te espreita.
Há um ano, você quis equilíbrio. Um ponto de segurança. Mas o chão se moveu e o levou.
Há um ano você foi feliz. Há um ano você tem tentado ser feliz. Há um ano você é feliz.
Isso, posto agora, parece que foi há muito tempo. Os seus 365 dias e 6 horas que se passaram parecem, escritos, uma longa e exaustiva jornada, cumprida com penar e suor, a custo de algumas partes que se separaram e outras que se juntaram.
Mas na verdade, passado tudo isso, parece um piscar de olhos. Um tempo mais desperdiçado que vivido, algo que deveria ter oferecido mais oportunidades a se viver e momentos marcantes a se recordar, não tão pleno de lembranças fugidias.
E no final/começo desse ano, parece um ciclo.
Velhos tempos, tão similares e tão diferentes quanto possível dos novos tempos.
Há um ano, suas esperanças eram as mesmas, ainda que em formas diferentes. Sorrindo, você disse que poderia tudo ser diferente, e de certa maneira foi. A ação acontece, a reação desnorteia e as forças se reagrupam para um novo embate.
Há um ano havia um clima diferente no ar. Não definitivamente melhor ou pior, mas os sorrisos pareciam diferentes, suas companhias eram outras e os sons tinham outros significados. Faltava, por mais paradoxal que seja, o excesso de julgamento que também não há hoje, mas que talvez seja o que deixava tudo tão livre de obrigações. Ou assim parecia.
Há um ano, ocorreu algo. Uma fagulha que percorreu seus pensamentos, que transformou seus conceitos e que te trouxe novas certezas para velhas dúvidas. Em um lugar só seu, você ainda guarda seu direito de novamente alterá-las quando novas situações aparecerem e demolirem o que você construiu. Penas e condenações somem ao se encaixar em novos paradigmas. Novas culpas surgiram para equilibrar a balança baseada nas novas condições que te perdoariam em uma gama mais ampla de situações, e novos pesos te esmagam a cada passo em falso. Exatamente como já havia acontecido.
Há um ano, você se entregou à fortuna. Durante algum tempo, não fazia diferença no que acontecia ou iria acontecer. Com um misto de indignação e raiva, de luxúria e ultraje, você julgou certo extrair apenas o que lhe fazia feliz, ainda que momentaneamente. Não durou muito, é verdade, pois não há hedonismo que traga alegrias por grandes períodos. Você achou justo, mesmo sem saber em que essa justiça se baseou, e achou justo também não se sentir mais assim. Mas fechado o ciclo, novamente a fortuna te espreita.
Há um ano, você quis equilíbrio. Um ponto de segurança. Mas o chão se moveu e o levou.
Há um ano você foi feliz. Há um ano você tem tentado ser feliz. Há um ano você é feliz.
Isso, posto agora, parece que foi há muito tempo. Os seus 365 dias e 6 horas que se passaram parecem, escritos, uma longa e exaustiva jornada, cumprida com penar e suor, a custo de algumas partes que se separaram e outras que se juntaram.
Mas na verdade, passado tudo isso, parece um piscar de olhos. Um tempo mais desperdiçado que vivido, algo que deveria ter oferecido mais oportunidades a se viver e momentos marcantes a se recordar, não tão pleno de lembranças fugidias.
E no final/começo desse ano, parece um ciclo.
Velhos tempos, tão similares e tão diferentes quanto possível dos novos tempos.
Assinar:
Postagens (Atom)




