sábado, 21 de março de 2015

Prólogo - A Chuva de Sangue

Tentava esconder o ferimento na lateral de seu abdômen. Sentia-se zonzo, e cada olhada em sua camisa branca ensopada de sangue lhe causava náuseas. Agora que achara um lugar seguro, foi conferir o estrago. Um talho profundo que ia de sua costela até pouco acima da bacia, limpo como só a mais afiada lâmina poderia fazer. E nada é mais afiado que aquilo que causara o ferimento.
Olhou ao redor, preocupado. Tentou ouvir se alguém se aproximava, farejar alguma ameaça no ar. Sem notar nada, resolveu se curar ali mesmo. Concentrou-se e colocou uma das mãos sobre o corte, que ainda vertia sangue em grandes quantidades.  Fracos lampejos azuis, como pequenos vaga-lumes, começaram a circundá-lo em espirais concêntricas e perfeitas. De olhos fechados, utilizando toda sua vontade para que aquilo que estava fazendo acontecesse e transformando em realidade seu pensamento, fechou o ferimento.
Agora estava completamente esgotado. Usara suas últimas forças para esse pequeno truque e não havia como correr mais. Encostou-se o melhor que pôde detrás de uma lata de lixo nesse pequeno beco em que entrara, tomando cuidado para manter-se o mais escondido possível. A chuva caía forte, lavando o ex-ferimento e diluindo o vermelho. Abraçando seus joelhos, respirou profundamente e chorou fracamente. Ele havia feito seu melhor, mas o adversário era forte demais. A guerra na qual ele era um bravo soldado queria agora tomar sua vida, e apesar de tudo, ele tinha apenas 11 anos. Ainda era muito cedo para o fim.

Um tremor em sua espinha seguido pelo som de um rosnar bestial que vinha de muito perto lhe trouxe de volta. Rapidamente, mas sem deixar de se ocultar, preparou-se para o pior. Cerrou os punhos, murmurou uma prece e ativou seu último recurso. Correram faíscas vermelhas pelos seus punhos, e ele aguardou. O som parecia afastar-se, depois aproximar-se mais, depois cessou.
A chuva constante não abafava seu arfar, ainda que ele se esforçasse para ser silencioso. Tremia de frio e de medo.
Talvez tivesse se livrado, pensou. Talvez o monstro tivesse se cansado da perseguição e ido buscar outra presa. Caçadores são implacáveis, mas não têm tanta predisposição para a busca. Não seria a primeira vez que alguém havia ludibriado algum deles escondendo-se bem.
Ao final desse último pensamento, a parede contra a qual a lata estava apoiada cedeu.
A criatura, que lembrava um cão diabólico, com dentes desproporcionalmente grandes e coberto de sangue e pus rugiu em sua cara, assustando-o. Com reflexos rápidos, o garoto acertou o punho no focinho do ser e moveu-se para a outra parede, se encurralando mas ganhando distância.
- Oras, isso me machucou, quem diria - disse o monstro - Uma pena que não o suficiente, pequeno.
Riu, com a pura intenção de mostrar sua superioridade e malícia.
- É, não pensei que fosse funcionar. Não contra o senhor dos caçadores, que de tão magnânimo prefere caçar algo pequeno como eu. Diga, como é ser tão poderoso e não aguentar nem me matar? - respondeu nervosamente, apenas para ver se conseguia algum tempo para pensar numa saída. Não acreditava que houvesse alguma, mas tinha que tentar.
- E achas que vive pois não tenho força para matar com um único golpe? Você? - e riu descontroladamente novamente - Vives apenas para minha diversão, e para que minha última bocada em seu pescoço tenha o agradável sabor do medo. Não há, em nossa existência, alguém em quem eu não possa cravar meus dentes e reclamar como minha presa. Agora, contudo, entedio-me com o falatório. Obrigado pelo jogo hoje à noite, pequeno.
A criança viu que não tinha escapatória. Lembrou do dia em que fora convocado para a Guerra, o dia em que abriu os olhos para a verdadeira natureza do mundo, A mágica fez de sua vida algo verdadeiro, não o simulacro existente em que todos vivem. O mundo era mágico! Quantas maravilhas eram possíveis, e era tudo tão fácil...
Agora, ao chegar o momento de cerrar seus olhos ele decidiu enfrentar com valentia. Não tinha mais como invocar qualquer truque, mas ele nascera com um dom. Aprendeu a dominá-lo apenas depois de aprender sobre magia, pois essa era a natureza da divinação. E teve ajuda de seus companheiros, seus irmãos em armas e mágica e por isso, fechou seus olhos e pensou neles.
Ao abrir seus olhos brilhavam azuis, num fenômeno curioso que fez a fera deter-se por um instante.
- Pois fique sabendo, matador. Seus dias estão no fim. A chama que destrói a escuridão já está entre nós, embora ainda não saiba. E como você sabe, ele irá te destruir e restaurar a magia nos corações. Será derrotado e humilhado, e todo o terror infligido por você e pela sua raça malévola será esquecido, e ninguém mais temerá as noites. Hoje é apenas o começo de sua derrocada.
- Oras, não é que o infame e fraco fala? Destruirei seu campeão, e terei sua cabeça em meu pescoço para que todos saibam quem é o verdadeiro dono do mundo!
- Não será assim. Não tardarei mais minha morte, mas garanto que terá um gosto amargo, ainda que não hoje. Venha, monstro, e comece a cumprir sua sina.
A fera, ao ouvir isso, ficou hesitante. Nunca antes uma presa falara algo assim, ou agira dessa maneira. Como esse fedelho não tinha medo de sua morte, oferecendo-se para o sacrifício assim?
Mas de maneira alguma se deteria. Com passos cada vez mais confiantes e terminando num horrível encarar, abriu a bocarra a envolveu a cabeça do pequeno. Antes de terminar a mordida, ouviu:
- O fim para o começo.


No dia seguinte, a chuva não havia cessado. O mundo não parou, e nem haveria de parar. Naquela mesma cidade, dois garotos tomavam seu café da manhã antes de ir para suas escolas, O pai falava nervosamente ao telefone, resolvendo assuntos de seu trabalho antes mesmo de tomar seu café.
A TV estava ligada, passando o jornal matinal. Um dos garotos prestou atenção apenas em uma notícia, mas teve que se levantar para ir antes de ver a matéria completa. Por algum motivo, que ele não saberia dizer, aquilo o acompanhou durante toda a ida para a escola. Ao soar o sinal do começo da aula, ainda podia ouvir o repórter dizer:
- Um corpo de uma criança decapitada e desfigurada foi achado no Beco Triangular pela manhã.



sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Sobre desertos e a Humanidade.

Estive bem por algum tempo, mas agora há muita tormenta. Veja, meu caro: não importa para onde se olhe, o deserto tomou conta.
Ainda há um oásis ou outro, porém a cada dia a desolação cresce, tornando inabitável lugares antes agradáveis. Paisagens de areia e tempestade, onde nada há de crescer fora seres terríveis e vorazes, que devorarão sua carne e tomarão sua vida por pouco. O pó será o destino de quem se atrever, junto com seus sonhos e realizações. De nada valerão suas obras; seus projetos celestiais ou profanos, de pequena ou grande escala, feitos de heroísmo e de covardia serão subjugados e esquecidos. Tornar-se-ão mais grãos na aridez infindável, e não serão mais conhecidos pelos seus semelhantes.
Haverão também aqueles que se perderão. Não se desmancharão para unir-se ao deserto, mas sim vagarão sem rumo por entre suas dunas e caminharão lado a lado com as bestas, devorando aqueles que adentrarem enfrentarem os raios e a areia. Estes serão os amaldiçoados, com seus olhos vazios e almas corrompidas e derrotadas. Farão mal pior que o deserto, trarão tristeza mesmo a seus entes queridos, desfazendo-os gradativamente para então alimentar os animais da tempestade, pois serão agora movidos por isso. Incapazes de se felicitarem por si ou de regozijarem-se na alegria do próximo, farão de tudo para torná-los poeira, obtendo assim combustível para si.
Agora falarei de quem ainda vive à margem do deserto. Vivendo ao lado da desolação, há o contraste necessário para percepção da real condição do lugar onde se está; porém, por algum motivo, não se faz essa comparação. Questionamento vão é aquele em que se diz em qual lugar da luz é mais brilhante, em qual região o ar é mais leve e quais as vantagens de se possuir mais bens. Uma vez em que é possível viver e ter seus sonhos e projetos, irrelevante é aonde se está; tampouco deve ser incentivado o pensamento de que é necessário sempre ter mais, para aumentar a distância entre si e o próximo. É preciso entender que mais vital é evitar o aumento de população do deserto. É compreender que é mais preciso ajudar um semelhante à beira da areia, ou algum que está caindo no canto dos malditos, aqueles para quem uma palavra de real preocupação e de solidariedade farão a diferença. Esqueçam suas mesquinharias e rixas egoístas. Façam de seus lugares menos salões vazios e mais salas abertas aos viajantes, aos que estão para se perder, ao que ainda não se fixou e se leva como a folha no vento. Sejam mais felizes com o próximo sendo alegrado; tenham desprendimento material e de alma; dedique um momento para seus queridos, e um minuto para os desconhecidos.
Sejam, de forma sincera, felizes e gratos por não estarem em risco de afundarem na areia e de se perder em dunas, e não sejam coniventes ou lenientes ao ver alguém se desmanchando no pó.
Pois, apenas assim, terão total certeza de que seu tempo de vida, por mais curto que seja, foi proveitoso.
Logo, essa é a resposta para sua indagação sobre como me sinto sobre a humanidade, meu caro. Faça disso um guia, desconsidere se quiser. Mas o alerta foi dado: apenas aqueles que o levarem em conta terão tempo para se corrigir e não tornar-se mais um grão de areia no deserto.

Dos escritos perdidos do Sábio Longínquo.



quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Linha 11 - Coral

- Não empurra, porra!
- Não sou eu, tô sendo levado também!
- Não tá vendo que tá cheio cacete?
- Mas não sou eu, tão me empurrando também!
- Então passa o esporro e para de empurrar!
- Não tem como, não to nem com meus pés no chão!
- E quem é o infeliz que está fazendo isso?
- Alguém que realmente merece a palavra, mas não eu!
- Putz, esse treco vai sair e eu não to me segurando
- Eu também não estou, mas sei lá, se quiser se apoiar...
- Porra, espertinho você hein? Não, prefiro ser encoxada pelo peão mais suado do trem!
- Isso é fácil, ele tá atrás de você agora.
- Como assim? Que porr- Ah, seu filho da puta..
- Hahahahaha!
- Porra, eu me assustei agora, pra que mentir?
- Sabe, acho que você devia falar menos palavrões. Ficam meio deslocados em você.
- Ah, nessa vida de fodido, nesse trem do caralho cheio pra diabo pode ter certeza que é justificado.
- Concordo, mas ainda assim acho.
- Tanto faz. Eu queria pelo menos estar me segurando em algo.
- A minha oferta continua de pé.
- E eu ainda prefiro abraçar um cacto. Você se acha muito malandro né?
- Prefiro me ver como gentil. De qualquer forma, algo me diz que na próxima estação você muda de ideia.
- Quanta prepotência hein? Pode deixar que eu me viro.
- Fique à vontade.
- Segurando a porra da porta essa merda desse trem não vai mesmo
- Não sou eu, to do seu lado no meio do trem.
- Eu não disse que era você, estava apenaaaaaaARGH
- Mas que coisa, você quase caiu quando o trem saiu! Gostaria de se apoiar em algo, minha cara?
- Vá tomar no cu, engraçadinho.
- Poxa, que gratuito! Essa foi pesada hein.
- Tá tá, sem choro. Esse maquinista também tá achando que tá levando gado, só pode.
- Há semelhanças, creio eu. Mas gado não ouve funk sem fone de ouvido, que eu saiba.
- De verdade, você tá achando toda essa porra engraçada né?
- Eu diria conformismo cínico.
- Falando assim parece doença. Vai se tratar e se cura dessa espertice também.
- Acho que é incurável. Assim como seu stress permanente.
- Muito pelo contrário, só fico assim nessa lata de sardinha. Sou muito calma e controlada.
- Fácil de imaginar. Então você tem Stress Permanente em Trens.
- Quem não tem?
- Eu. Tenho Conformismo Cínico, lembra?
- Você tem é cabeça oca, de verdade.
- Ora, isso foi uma afirmação com um quase sorriso? Quem diria que um desses surgiria por aqui.
- Pois é, estou me curando, olha só.
- Que beleza, hein. Aliás, eu se fosse você me segurava...
- Tava indo bem, mas afundou. Tinha que dar uma de gostosãããAIAIAI
- Eu avisei..
- Porra, essa gente empurrando pra descer, dá tempo viu! PUTA QUE PARIU, alguém pisou no meu pé, filhos da puta!
- Então, né.
- Para com esse sorriso agora!
- Eita, que que eu fiz?
- Olha, você tá achando muito engraçado mas quase fui pisoteada e levada aqui.
- O que não aconteceria se você tivesse feito o que? Ah tá.
- Ah, então a culpa é minha?
- Não disse isso.
- E de quem é então?
- Não sei. Estou apenas oferecendo ajuda.
- Sei...
- É verdade. Sinceramente, não estou tão desesperado a ponto de ficar chantageando uma garota por contato físico.
- Vai saber. De repente seu estilo espertinho-malandrão não faz muito sucesso e agora você quer faturar uma...
- Garanto que não é o caso. E apenas para informação, meu estilo faz bastante sucesso.
- Ui, mexi onde não devia é?
- Não, minha cara. Apenas reforçando um pequeno ponto.
- Sei sei. Imagino quão pequeno seja essa ponto...
- Fique à vontade para imaginar. Imagino que você queira reconsiderar minha oferta agora...
- Tá chegando na estação? Tá bom, dá um espaço aqui.
- Opa, todos.
- Você pode levantar o braço? Agora vou passar por baixo, dar a volta [amigo, me dá licença por favor? Obrigada] eeee pronto!
- Isso aí, estamos prontos.
- Hmmm não estamos chegando em estação alguma né?
- Depende de quão próximo é o seu chegando.
- Sei sei...
- Quem sabe a viagem fica melhor que o destino?
- E agora você entende de destino?
- Fica meio difícil não entender do destino literal que eu falava, mas na real, talvez agora eu entenda um pouco de destino.
- Como assim?
- Eu posso te explicar...

E assim foram.


Raiva nº3

Eu quero gritar minha fúria
Quero fincar minha espada no coração da terra
Ver meu dano localizado sendo localizado em tudo
Amargar com meu ódio a areia e o sol
Quero me afastar da ignorância
Dar vazão em minha bile negra
Ser agente da transformação maldita
Mostrar a cor da decepção e o cheiro de destruído
Me banhar em sangue inimigo
Atirar a primeira, a última pedra
Sobre os escombros, apenas minha gargalhada
Minha insanidade, meu risco à sociedade
O fim de tudo por minhas mãos
Eu quero gritar minha fúria
Mas não para ressoar pelos campos
E destruir salões pelos cantos
Ruir palácios com torres imponentes
E mostrar a podridão inerente
Sem me segurar,
Nenhuma trava, nem consciência nem medo de consequencia
E ser o leão na savana
Quero descarregar no primeiro que eu ver
Quero rasgar gargantas e peitos
E quero mais, muito mais
Enquanto estiver de pé
Caiam todos aos meus
E nunca mais guardar rancor
Vingança na hora, troco sem ser frio
Eu quero batalhas sujas e sem heróis
Tiros nas costas, execuções covardes
Por hoje eu quero morte.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Uma inadequada história - parte 1

Trechos resgatados do diário do Dr. Hans Schucrutz


15 de Fevereiro
Minhas viagens me trouxeram até a Suécia, onde repouso depois de minhas malfadadas expedições em busca de provas para os eventos descritos nas antigas lendas sobre o "Apocalipse das Borboletas". Reitero, como descrito no registro anterior, que a falta de apoio de meus pares acadêmicos foi a principal causa para o fracasso, visto que minha crença inabalável no acontecimento é motivo de piada.
Enfim, tendo isso como causa, acabei por ficar nesse país de clima agradavelmente gélido. Acabei por conhecer alguns interessantes residentes e, mais importante, um interessantíssimo bar conhecido por vender a vodca mais forte de toda Escandinávia. Tenho passado alguns dias e noites [que nessa estação são praticamente indistinguíveis] nesse simples estabelecimento, ouvindo e contando histórias.

5 de Março
Depois de certo tempo frequentando o Lundgren's, taberna registrada no escrito anterior, e de já ter todos os benefícios relativos à posição de cliente regular, contei a história de minhas expedições atrás do Apocalipse. Pela primeira vez em tempos, não recebi nenhuma forma de chacota ou risos implícitos ou explícitos. Ninguém me olhou com condescendência ou questionou sobre abusos na infância ou uso de entorpecentes. Não me chamaram de louco com diploma, não tentaram cassar minha licença. Todos me olharam impressionados. Aliás, não todos; a atendente e proprietária da casa, Srta. Johansson, pareceu-me incomodada mas não por supostas idiotices que estava dizendo. Cada detalhe que eu revelava sobre a história ela me olhava como se eu tivesse falado algo que não devia.
Ao terminar meu relato um de meus amigos locais, Frey Hein-Hagen, começou a falar que aquilo que eu havia descoberto era apenas superficial, mas foi interrompido por uma sessão grupal de tosses fingidas e canecas sendo derrubadas das mesas de propósito. A Srta. Johansson o escoltou para fora do bar dizendo que ele já tinha bebido demais, embora tivesse tomado apenas suco de tomate. Achei todas aquelas atitudes estranhas, mas um viajante experiente como eu tem que saber a hora de indagar sobre algo e a hora de calar-se. Isso foi há 4 dias atrás. Pela cidade agora sou alvo de olhares desconfiados e sussurros depois que eu passo. Será que, ao contrário do que me pareceu anteriormente, não levaram minhas crenças ao ridículo? Frey não apareceu mais no bar, e ninguém sabe me responder por onde ele anda.
Levei esta situação até onde pude. Ontem esperei todos saírem e, quando estávamos sós, resolvi interrogar a Srta. Johansson. Tomando um gole de coragem [que, estranhamente, pareceu vodca sueca] perguntei o que ela sabia sobre o assunto citado. Ela riu nervosamente e negou qualquer conhecimento, desde o paradeiro de Frey até borboletas sugadoras de cérebro, mas de forma pouco convincente.
Eu lhe ofereci dinheiro, ameacei, implorei e até tentei seduzi-la, mas meus encantos são por demais refinados para uma pessoa de tão baixo patamar intelectual, ao que parece. Saí do bar deixando a promessa de voltar.
Cheguei em meu quarto de hotel e encontrei-o completamente revirado. Nada foi roubado, mas encontrei um bilhete. Li, guardei-o no bolso, fui até a recepção e eles me disseram que nada foi visto, mas que talvez as câmeras tivessem gravado os responsáveis. Suspeito de algo incomum acontecendo, mas admito que não possuo evidências conclusivas.

6 de Março
Escrevo isso de dentro de um quarto no qual sou mantido refém. Não faço ideia da razão pela qual me capturaram, tampouco qual motivo os levou a me chutarem em diversos locais de meu corpo. Entraram em meu quarto na madrugada e ordenaram a rendição, algo que fiz sem sequer pestanejar. Talvez eu tenha gritado, mas isso é procedimento padrão nessas ocasiões, não? E me debati, apenas para compor a cena que se espera ao prender um luminar da sapiência como eu, mas nada fiz além disso. Que culpa posso ter se acertei a canela de um dos sequestradores enquanto segurava no colarinho do outro implorando em nome de minha mulher e filhos [não que eu os tenha, obviamente, é apenas mais um componente cênico necessário para compor a dramaticidade do momento]? Culpa tem eles de, apesar de arrombarem a porta, terem sido tão pacíficos em seus pedidos gentis para que eu os acompanhasse. Como não sabem como lidar com um tão ilustre prisioneiro?
De qualquer forma, cá estou eu escrevendo neste caderno que, em minha epifania involuntária ao comprá-lo escolhi, é pequeno. Digo que essa é uma vantagem pois ocultá-lo não foi uma tarefa difícil, ainda que em uma cavidade corporal que eu prefiro omitir do relato.
Já consegui entender, de uma maneira trôpega, que vão me interrogar. Sobre o que? Resta-me cuidar de meus ferimentos e uma vez mais ocultar esse caderno, para que não o peguem em revistas.

7 de Março
Admito, estou intrigado com o comportamento desses sequestradores. Novamente, fui tratado com uma cortesia completamente incabível na atual circunstância. Fui levado sem qualquer tipo de algema ou corda para o local, tive um jantar farto e variado [com uma única crítica, o pato com laranja estava seco demais, fato esse que fiz questão de levar ao chef] e sentei-me numa confortável poltrona de couro para responder perguntas. Após berrar e dizer que apenas sobre meu cadáver teriam qualquer resposta, tive como reação apenas pedidos para que eu me acalmasse e sorrisos simpáticos.
Que bando de amadores! Tive que novamente tomar a iniciativa, tentando agarrar meu interlocutor desconhecido [nota: esperar ele se apresentar da próxima vez] e dizer que nada sabia [ainda que só tivessem perguntado meu nome, se não me falha a memória]. Fui agredido covardemente, pelas costas, com um tapa que ainda deve estar marcado próximo ao refúgio deste caderno. Foi me atirada uma cópia de meu artigo, questionada qual a razão de minha pesquisa, qual me interesse e, por fim, o porquê eu queria impedir o Holocausto das Asas Leves. Essa última questão manteve-me absorto por uns instantes, de olhar fixo no cálice de Cognac em minhas mãos. Um questionamento absurdo, obviamente, mas algo nessa sentença emitida parecia não fazer sentido. Apenas após ser levado de volta à minha cela, consegui entender o que me incomodava: "Holocausto das Asas Leves" não era um bom nome para o evento, por isso que o preteri em favor de "Apocalipse das Borboletas". Como aquele homem tão bem apessoado teria escolhido o outro? Não me recordo de tê-lo escrito uma vez sequer, de tão abominável que me pareceu, então que razão o faria preferir o outro?
Enfim, deixarei o questionamento de lado e deitarei-me em minha cama de prisão, com lençóis de algodão egípcio de 550 fios e travesseiros de pluma de ganso das Antilhas. Nunca pensei que seria tão difícil manter-me são sob tão severas condições! Ao me puxarem fora da sala de interrogatório, enquanto fazia meu mise-en-scéne, tive a impressão de ver uma colossal asa azul celeste entrando pela janela. Aliás, embora não tenha descrito, ao ser carregado para meu cárcere atual, tive a mesma impressão na mesma sala. Do que se trata? Devo investigar mais a fundo, e para isso prolongarei minha estadia aqui. Decerto será fácil, afinal quem poderia rivalizar com meus artifícios? Repousarei agora e amanhã certamente terei novidades para relatar.



quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Um "até mais"

Houve o momento de se dizer;
Então o suspense do ar preso nos pulmões
Sem se tornar vocal
Um monte de propostas
Para se dizer
Dentes cerrados, mente aberta
Sentimentos complexos para expor
Palavras difíceis para descrever
Muito a dizer, pouco tempo
Decisão em breve instante
Na velocidade de um pensamento
Que desaparece na indecisão
E rói por dentro
E remói em silêncio
Não completa em fundação
Agora só uma ideia
Mais forte, intensa
Uma saudade quase plena
Felicidade, apenas
Amizade que faz falta
Daquela que só acontece de tempos
Em tempos
O sorriso não esconde
Mas a palavra disfarça
Mantém um pequeno controle
Com um discreto olhar
E a curta ideia
"Muito bom te ver, hein"

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Hollow

As vezes passava o dia sem falar com ninguém. Guardava para si seus pensamentos, o que causava um tumulto em sua cabeça. As palavras não emitidas brigavam entre si, buscando a supremacia e ascensão na enorme fila que se formava para sair.
Fora de sua mente, o mundo passava. E nada ele falava. Não que se tratasse de um tímido, tampouco era uma pessoa sem opinião. Muito pelo contrário, o que ele mais tinha era ideias sobre o mundo ao redor. Sobre a catraca do ônibus. Sobre a música do Badfinger. Sobre a forma de gelo que ninguém nunca enche. Sobre a política externa do Cazaquistão. Mas todas elas eram presas por seus dentes, e por mais que sua língua tentasse expressá-los eles morriam ainda em suas entranhas.
Talvez não fosse o melhor jeito de viver; toda a complexidade humana, ainda que artificial, produzida por reações de elementos químicos e impulsos elétricos que se fazem acreditar por coisas sérias, não foi feita para ser aprisionada. A linguagem provavelmente se desenvolvera por isso: para que os demônios internos de cada pessoa pudessem ser exorcizados de forma simples. A inexpressão nos força a enfrentar o pior dos inimigos em batalha, o eu mais verdadeiro e inatingível. Essa luta desmonta por dentro, revolvendo até a parte mais profunda do que nos faz humanos. Pois sim, o verdadeiro sentido de humanidade só é atingido após nos expressarmos, após purgar a alma de seus demônios e renascer em sentido, ideia e espírito.
Agora, mais ideias se formavam sem sair de dentro dele. Uma das possíveis razões era a falta de platéia. De que vale dizer o que não haverá ninguém para ouvir? Ainda que mais pessoas estivessem em volta, não necessariamente elas estariam ali para ouvir algo. Ainda que estivesse conversando com alguém, nada indica que ele seria ouvido. Diz-se também que a comunicação só termina na mente do receptor, com ele completando o que foi emitido com sua própria bagagem e visões. Então de que vale emitir ideias que permanecerão incompletas? De enviar mensagens trôpegas, ocas e perdidas?
Mas não era essa a razão.
A razão, pura e simplesmente, era porque ele tinha medo. Apenas assim.