quinta-feira, 30 de julho de 2020

Sonolência

Um sonho apenas. Acordava ofegante e suado, os lençóis bagunçados mas tudo era apenas um sonho.
Foi ao banheiro e se olhou no espelho. Esperava reconhecer o herói das aventuras, o centro da história. Encontrou uma face cada vez mais enrugada, marcada pela passagem do tempo.
Voltou ao quarto, trocou de roupa [ainda sem encontrar vestígios de sua armadura brilhante ou da camisa que brilhava ao invocar seus poderes], foi a cozinha preparar seu café da manhã. Abriu a geladeira quase vazia, pegou a margarina quase vazia e passou num pão quase sem recheio. O café não tinha o mesmo cheiro do sonho, a comida não satisfazia seus sentidos. Não havia um leve ar de especiarias, uma atmosfera mais quente.
Suspirou fundo. Ligou a TV para ver as notícias, nada sobre as peripécias de um jovem de 20 e poucos anos sendo destaque num esporte que nunca havia praticado, nada sobre reencontrar um flerte há muito não visto mas que deixou a marca do não concretizado.
Apenas novidades de um cinza apático, de um mundo que não para de girar.
Levantou, jogou a louça na pia e se preparava para sair. Não iria voando, não teria um carro superesportivo esperando. Uma caminhada até o ponto do ônibus, que não iria se acidentar e prenderia em suas ferragens nada menos que seu verdadeiro amor, o qual apenas ele conseguiria salvar num ato de heroísmo. Não haveria cerimônia numa praia paradisíaca, não dessa vez.
Um dia nublado, uma chuva fina e incerta. Frio, muito frio. Não havia neve, não teria esqui ou resgate nas montanhas. Não faria uma descoberta peculiar andando na rua, não encontraria seus amigos e iria se aquecer na companhia deles.
Nada aconteceria. Mais um dia, menos um dia. Nenhum bilhete premiado no caminho, nada de encontrar um parentesco com uma celebridade, nada de se destacar como um talento tardio.
Nada de revolucionar o mundo.
Sentou-se à mesa do trabalho, deu um novo suspiro profundo e ligou o computador. Olhou para o relógio na parede e perguntou-se quando podeira sonhar novamente.

domingo, 17 de novembro de 2019

Demolição

Qual a ideia a expressar
Tenho feito silêncios e introspecções
Revirei pedras e arcabouços
Mas não era necessário 
Tudo o que foi preciso foi me ver
Foi estar onde não devia

Sempre penso no que sinto realmente 
Qual o motivo dessas lembranças doerem tanto
Como fiz de mim algo com medo da própria mente
Sem coragem de olhar atrás das portas
Fingindo uma indiferença que não tenho
Esperando algum salvador falar ou pensar por mim

Sem, no entanto, deixar me guiar
Confiar cegamente no destino
Ou em deus, se existir algum 
Se alguém acaso se importe, também 
Hoje o cinismo é tamanho que até minha falta de fé parece desacreditar de mim.
Eu respiro pesado, sentindo os dados sendo rolados

Vejo o fracasso continuo de tudo
A entropia universal vindo em velocidade máxima 
Dói a cada derrota
Dói a cada momento 
O relógio escancara minhas falhas
Por um tempo me acalmo

O remédio não faz mais efeito
A vida não faz mais efeito 
Onde me enganei?
Trilhei caminhos que nem sempre estavam abertos 
Pela pura teimosia
(São novamente quatro horas?)

O que restou de mim?
Quem é você?
O que faz de mim eu mesmo?
Por que estou novamente oco?
Que desgosto é esse?

Busquei conforto em meu sofá 
Enterrei minha cabeça nas almofadas.
Fiquei novamente em silêncio 
E o cinismo está palpável. 
Acaba mais uma vez
E nada fiz.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Capítulo 1 - Garoto problema.

Rafael era um garoto problema. Sentado na janela da sala, observando a cidade vazia e cinza naquele dia chuvoso, cidade desconhecida. Estava triste com tudo o que acontecera, mas nada era pior que essa sensação de desconhecimento, de não estar em casa, de solidão.
Havia se mudado há pouco tempo e tudo havia mudado na sua vida. Antes era feliz, tinha uma turma grande de amigos, era o rei de sua escola. Falava com todos, era conhecido por todos. Gostava de pensar que seria assim pra sempre.
Ouviu o carro de seu pai parando, os sapatos chapinhando na água, a porta de casa abrindo, mas não se moveu. Seu irmão mais novo passou por ele e o cumprimentou efusivamente e tentou abraçá-lo, mas Rafael esquivou. Sem acusar o golpe, ele tentou contar empolgadamente algo que havia acontecido na escola ou alguém que tinha conhecido, mas não foi ouvido. Finalmente ele se afastou, um tanto contrariado por ser ignorado. Rafael sabia que o magoara, mas não se importava. Ali estava apenas cinza, como o céu lá fora.
- Passei na sua escola e me disseram que você não foi - disse seu pai, tirando o casaco molhado e chacoalhando o guarda chuva em cima do carpete - Droga!
- Eu não fui mesmo - disse Rafael, sem virar o olhar.
- Bem, você sabe que isso não está certo. Você não vai me dizer qual o motivo pra eu te deixar na porta da escola e ainda assim você não assistir a aula?
- Eu não quis. Essa escola é ruim e os meninos lá são piores.
- Isso não é motivo pra faltar, sinto te informar. Você vai ter que frequentar, é uma escola ótima com boas referências.
- Não melhora em nada pra mim.
- Mas não tem que melhorar, ok? Agora o que você tem que fazer é ir lá e fazer alguns amigos - seu pai deu um toque no seu ombro, e Rafael olhou raivosamente para ele.
- Fazer amigos nessa droga de lugar não vai acontecer mesmo.
- Olha, eu sou paciente, mas hoje você que não me teste - a irritação era flagrante.
- Não vou te testar, mas eu não vou praquele lugar e se estiver achando ruim me mande pra minha avó.
- Rapaz, você acaba de cometer um grave erro - seu pai agora o apertava forte no braço - Você vai para lá sim e se eu ficar sabendo que você não entrou vai direto para o castigo!
Sem levantar o tom de voz, Rafael olhou nos olhos de seu pai:
- Eu já estou de castigo, lembra? Semana passada, por responder o professor. Arrume outra coisa pra me machucar.
Seu pai soltou o braço, e aproveitando o momento Rafael correu para seu quarto.
Trancou a porta, deitou na cama e afundou a cara no travesseiro. Se nada tivesse acontecido, se sua mãe não tivesse morrido, se seu pai não tivesse mudado de cidade e levado os filhos, se ele simplesmente tivesse ficado com seu avós, não seria tão difícil.
Agora ele era apenas um garoto problema, mas na realidade ele estava triste, tão imerso em si que nada mais importava.
O céu continuava cinza, a cidade era triste e as pessoas eram estranhas.
Apenas um garoto problema.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Uma inadequada história - parte 2

Mensagem encontrada em um envelope lacrado com cera, numa gaveta de uma escrivaninha em um quarto de hotel que no registro hospedou o Dr. Hanzinza Schucrutidão

Caros leitores, como vão? Há tempos tento enviar essa atualização sobre meu cativeiro, porém, como narrei anteriormente, tive muitas dificuldades com a falta de hospitalidade de meus captores. Pois vejam, senão consegui até agora comover-lhes, a última injúria: fui hospedado numa suíte com um capanga à porta, para que eu não fugisse. Tenho uma hidromassagem, uma TV que posso ver e recebo refeições fartas, mas quando verifiquei o folheto do hotel não pude deixar de notar que era 4 estrelas. Novamente, dificultam minha vida, mas devo bravamente resistir, pois minhas descobertas nesse período foram extraordinárias!
Continuando meu relato de onde havia parado em meu diário, cumpri minha rotina de interrogatórios e interações animadas unilaterais que acabavam me rendendo algumas agressões alegremente por alguns meses, pelo que pude calcular. O chef nunca acertou o ponto do pato, mas provei uma raclette que certamente me renderá muitos sonhos no futuro. Mas divago. Pois bem, sempre me perguntavam pelo apocalipse das borboletas e sobre como havia descoberto tanto, subestimando claramente minha habilidade de pesquisador altamente experiente e capaz. E continuaram sem saber, pois a cada interrogatório eu prezava por manter meu papel de cativo, com gritos e esperneios que deixariam qualquer ator dramático com inveja. Após esse período, resolveram me deixar mais à vontade e pude andar livremente pela masmorra onde me confinaram. Tive então, acesso à outras salas e a algumas pessoas que estudavam areas similares às minhas, ainda que de forma rasa, e descobri, que a modéstia me perdoe, que apenas eu era um cativo. Claro, você leitor sabe o que isso significa: minha importância como estudioso do fenômeno me fazia muito mais relevante que os pobres incautos que não conseguiam sequer chegar perto de minhas descobertas. E que meu papel como sequestrado certamente era melhor desempenhado.
Quando alguém me abordava eu usava a mesma estratégia de gritar e espernear pedindo minha liberdade, e com o tempo fui sendo deixado em paz. E claro, descobri muito mais. Vi um porão onde haviam dezenas de espécies de borboletas em estufas, numa visão majestosa e em estrutura magnífica, mas que não entendi a serventia. Havia uma placa escrito "Viveiro de espécimes para utilização durante o Holocausto das Asas Leves", que achei curiosa, e uma porta de aço com a bandeira Sueca e uma sigla, a qual não me recordo agora.
Engraçado, nunca havia me ocorrido de esquecer algo. Deve ser essa banheira com sais baratos. Maldito momento onde nem uma jacuzzi foi sequer considerada para meu bem estar. Esses amadores ainda terão o deles, ah se terão! Mas divago novamente.
Um belo dia me buscaram em minha cela (que a essa altura já contava com um colchão razoável e travesseiros de pena), me cobriram o rosto com uma sacola e após um percurso labiríntico, me defenestraram, no sentido estrito do termo. Fui arremessado por uma janela e caí na neve escandinava, sem sinal de meus captores. O estabelecimento através do qual havia sido tão rudemente atravessado era, nada mais que o Lundgren's. Ele estava fechado, exceção feita ao estilhaçamento vítreo que induzi.
Fiquei confuso por um momento; logo fiquei plenamente ofendido. Decidi gritar o que havia passado a plenos pulmões no meio da aldeia onde estava o abuso a que havia sido submetido, e tenha certeza caro leitor que não poupei palavras! Como podiam se desfazer de um ícone da sabedoria como eu?
Tomei então, uma pancada na nuca que me desacordou. Ao recobrar-me, dei por mim nessa suíte. Ninguém veio falar comigo, e tendo disponibilidade de caneta e papel (algo maravilhoso, visto que em um acidente relacionado ao local em que guardava e que ainda reluto em comentar, perdi meu lápis companheiro) resolvi por minhas desventuras em dia. 
Sei que minhas descobertas estagnaram, porém acredito que preciso descobrir o que ha atrás da porta de aço. Algo me dá a certeza que a solução para tudo está lá, e digo isso a despeito de uma marcação na própria, dizendo "SECRETO".
A sigla me parece mais clara agora. Será que era LNBS? Mantenho a ver.
Assim como espero que achem meu diário, deixo esse envelope aqui. Continue me acompanhando!

Dr. Hans Schucrutz



Ondas

E aqui novamente estou olhando para mar. Você sabe por que venho aqui todo dia? Porque eu me lembro dela.
Eu era muito jovem. Eu tinha muito medo. Embora pouco tivesse vivido, já tinha sido rejeitado por vezes demais. Meu coração já estava partido e amedrontado além da conta. E no entanto, lá estava ela. Resplandecente, iluminada. E eu, um buraco negro. Demorou ate ter coragem de sequer falar com ela. Demorou mais ainda para conseguir articular uma conversa. Eu estava lutando com meus próprios demônios, com minha inabilidade de encaixar. Ela, tímida de início, tornou-se popular e sorridente, desabrochando na maravilhosa flor que é.
Com muito custo, consegui me aproximar mais, com desajeitados esforços para chamar a atenção. Tudo o que eu fazia, nessa altura, era para que eu conseguisse ser botado em meio a tanta gente. Tornei-me seu amigo, e cada segundo de conversa e companhia era sagrado e dourado. Me contentava com isso, tinha amostra do que seria ter relevância naquele universo tão distante do meu dia a dia sofrido e solitário.
Mas não era só eu que estava na idade de apaixonar; logo ela começou a ter encontros com outras pessoas, e cada vez menor fui ficando. Arrumei uma garota que disse que gostava de mim, e no meu desespero para me livrar de mais sentimentos tortos (como poderia ter ciúmes de alguém que nunca me iludiu, que nunca se interessou por mim?) mas a dor era tão enorme que quase desgracei uma vida além da minha.
Nesse ponto, já havíamos há muito nos separado nas voltas que a vida dá. Vi inúmeras viagens que ela havia feito, principalmente para o mar, e muitas vezes apenas para ele.
Dei um jeito na maioria de minhas dúvidas, ganhei algo de confiança e vivi a minha vida com um furo gigante no peito, mas vivendo.
E um dia, ela apareceu. Conversamos pouco, só o suficiente para que eu tivesse o mesmo sentimento aflorando e me atormentando. Continuava a mesma flor maravilhosa e iluminada que eu havia conhecido.
Combinamos de nos encontrar ou de conversar mais, não me lembro.
Mas claro, não havia mais tempo.
Por isso, hoje venho aqui olhar o oceano. Inconstante, mas sempre presente na minha vida. A tristeza de estar perto mas não ter o afeto. Ver se espalhando para todos os outros enquanto amo em silêncio.
A culpa e só minha, a dor também.
Por isso, meu amigo de nariz de bronze, voltarei amanhã para ver o mar e contar essa história para você.
Até.


sexta-feira, 31 de agosto de 2018

E se...?

E se
Por um acaso voce dissesse sim
Não sei o que faria
Que seria de mim
Perdido em pensamento
Processando a informação
Não sou acostumado a ter êxito
Não tenho talento para campeão

E se
Eu conseguisse ser feliz
Meu bem, contigo teria sido
Dias alegres e sorrisos
Pois me faria um bem querido
O que me falta de coragem
O que me faltou de coragem
O que não sumiu foi o amor

E se
Ao invés de ver todos os outros
Voce tivesse me visto aqui
Te amando em silêncio oculto
Me enganando para sofrer só um pouco
Sim, meu drama ainda é o mesmo
Fica meu fracasso em si
Pois a história tá aberta e eu não sei
Fechar

E se
Quando eu te olhei
Eu tivesse me apaixonado menos
Para que não esquecesse depois de um tempo
E para poder viver mais sereno
Não ter medo de te ver mais
E conseguir até, quem sabe
Um pouquinho de paz

E se.
E se nada tivesse acontecido
Seria eu ainda isso
Ou seria seu querido?

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Quase drama ao vento

A cena acabou se desenrolando as 4 da tarde, mais ou menos. Era julho, que deveria ser frio, mas naquele dia o Sol havia brilhado forte e estava naquele mormaço da tarde, enquanto as coisas esfriam para anoitecer.
Haviam muitas crianças na rua, num bairro pacato da periferia. Uma pequena atitude desenrola todo o acontecido.
- Ei, não começa a desbicar pro meu lado senao te corto.
- Se não tem coragem não empina pipa, tio. Segura aí que hoje tu perde essa fita aí.
- Mano, sai dessa, to com linha chilena e você vai rodar.
- Vamo ver então, bundão, quem pode mais chora menos. MANDA BUSCA!
Agora não tinha mais volta. Respondendo ao chamado, crianças olhavam atentamente para o ceu buscando as duelistas que fariam o show, prontos para assim que houvesse um vencedor correr atrás dos espólios que cairiam lentamente.
A tensão começava a se construir. O garoto da linha chilena, dono de uma pipa feita de papel de seda amarelo ouro com estrelas verdes e uma rabiola de sacos plásticos variados olhava com apreensão os movimentos do adversário. Não queria um confronto tão próximo de sua rua, pois sabia que os carniceiros iriam atrás dos despojos do derrotado com fúria destrutiva.
O rival, provocou o embate num desafio calculado, ao menos em sua cabeça. Sua pipa era feita de saco de supermercado, humilde, mas podia voar na chuva tranquila. Seu cerol estava grosso, mas tinha certeza que era suficiente para derrubar a adversaria. Queria ver a decepção de todos ao recolher a pipa cortada com a nova manobra que tinha treinado e um segredo na rabiola.
Então, o desenrolar foi o seguinte: as primeiras investidas foram buscando uma à outra no céu, aproximando e afastando antes do enrosco propriamente dito. Na primeira vez que as linhas se cruzaram não se cortaram, mas o puxão foi fortíssimo, quase machucando as mãos calejadas que faziam os movimentos frenéticos. Na segunda vez, a linha chilena se rompeu.
As crianças na rua dispararam atrás da pipa que caía solta, enquanto o outro duelista recolheu sua linha o mais rápido possível para tentar passar embaixo da outra. Olhando com um sorrisinho vitorioso para o derrotado, disse:
- Saca só vacilão!
Com um movimento forte, puxou a linha fazendo sua pipa subir e encaixar um pequeno gancho feito de clipe de metal na armação da derrotada.
As crianças que estavam correndo pararam, impressionadas. O agora dono das duas pipas recolhia a linha orgulhoso de ter conseguido a manobra. O derrotado recolhia sua linha menos desapontado consigo mesmo. Havia perdido para o melhor, ao menos.
Tudo havia acabado. Agora era aproveitar o final de tarde até a hora que as mães começariam a chamar seus respectivos, ignorando os acontecimentos do microverso contido em meia dúzia de CEP's.
Até que a linha da pipa vitoriosa estourou.
Por um momento, a maioria estacou, embasbacado demais com o acontecido para reagir. Mas logo a urgência tomou conta e crianças de outras ruas correram para pegar a agora duplicada oportunidade em queda livre.
Depois de recolherem suas linhas, os confrontantes originais se olharam. Houve raiva, frustração e depois calma. Riram do que aconteceu, o Sol se pôs e a vida seguiu.

domingo, 31 de janeiro de 2016

Fragmentação.

Deixei minha alegria com algumas pessoas
Perdi anos de minha vida em algumas situações
Parti meu coração em alguns acessos
Dividi minhas atenções em perdas irreparáveis

Hoje sou apenas um amontoado do que já fui
Pensamentos e atitudes desconexas
Hipocrisia e teimosia restaram no lugar de meu centro
Duvido de pequenas e grandes decisões

Mudei bastante para agradar
Mas não agradei a ninguém
Sinto falta do que deixei pra trás
O vazio em meu peito pelo que sou

Minha compreensão, minha compaixão
Minha empatia, minha noção
Minha visão de mundo, errante e sem convicção
A solidão pois todos andaram, e eu fiquei

Um silêncio inabalável
Vergonha pelo que sou
Pelas atitudes que tomei
Por desculpas que não pedi e nunca receberei

Procuro ajuda e não tenho
Tento ajudar e pioro
Como poderia?
Não tenho mais o que dizer, não tenho mais nada.

Peças que faltam
Olho e me sinto incompleto
Mas não há o que corrigir
Não há quem possa corrigir

Nada me justifica
Nada me salva
Sinto muito.
Por tudo.

sábado, 20 de junho de 2015

Sobre despedidas

Deixar ir é lembrar-se para sempre da parte boa e esquecer a parte ruim, é sentir saudade às vezes mas não sufocar-se, é doer, mas é aquele doer tão baixinho que é gostoso.
Não é fácil. Existem épocas tão iluminadas em nossas vidas que desejamos revivê-las a todo custo, ou nos ancoramos a elas tão profundamente que perdemos o curso da vida, fixados que estamos nesse desejo de que nada mude, mas deixamos de reparar que mudanças acontecem o tempo todo e que mudamos também. Somos agentes de mudança e somos mutantes, somos água que nunca está do mesmo exato jeito que se olhou anteriormente. É melancólico, na falta de termo melhor, saber que nem sempre aquela risada vai se repetir; que aquele grupo não se reunirá descompromissadamente, que uma conversa não será tão animada, que uma comida não terá nunca mais o mesmo sabor. Triste, mas parte de tudo. O significativo tem também um tom especial justamente por ser finito. Toda boa história tem início, meio e fim.
Nos cabe a lembrança, que dependendo apenas de nós mesmos pode ser dolorosa ou doce.
Logo, a luta nunca deve ser sobre viver o que já foi. Muitas coisas aconteceram e foram ótimas, muitas amizades foram verdadeiros escudos de cumplicidade nobre e altiva, muitos relacionamentos foram a epítome do amor romântico e completo, mas acabaram. E ao acabar, deixaram toda uma estrada percorrida para trás, do tipo que engole àqueles que se atrevem a observar a extensão passada.
Nos apegamos a um pedaço de nossa história que deveria ficar nesse ponto, não ser carregado para futuras caminhadas... Sentimentos que tiveram razão para existir, mas hoje só demonstram dolorosamente que nada mais há ali.
Por isso devemos deixar ir. Largar o que havia, encarar o que há agora. Lembrar com nostalgia, mas saber que já foi. Abrir-se para nova vida.
Seguir em frente valorizando o que passou, justamente por ter passado, e sentir-se feliz por ter vivido.
Sejamos, então, libertos. Vá em paz.

- Eu vou, mas só porque tu é chato pra caramba. Deve existir um jeito melhor de desencarnar que esse, putaquepariu....



Prólogo II - Iluminado

Conta-se que tempos atrás houve o duelo final entre o Iluminado e seu maior inimigo. O grande defensor tombou, mas não sem levar seu maior rival junto, encerrando seu conflito longo e penoso.
Mas o que não é dito, porém, é a noite que antecedeu essa última batalha, aquela que deveria ter encerrado de vez por todas a Guerra - e não torná-la mais franca, como ocorreu.
Sabendo graças à imensidão de seus poderes que sua hora estava próxima, partiu de seu castelo no Mundo-que-não-Existe e foi encontrar-se com seu antigo mestre na Terra, "Aquela-que-devora-sonhos", mortal para os aprendizes e inabitável para qualquer ser de outras realidades. Cruzou florestas cinzas, cidades verdes, mares bravios, oásis maravilhosos mas letais e por pessoas mortas [enterradas ou em pé].
Cruzou realidades irreais e desertos de cheios de sonhos até chegar na mansão oculta em uma caverna escondida entre a sombra e a luz, seu antigo sítio de treinamento.
Adentrou o salão outrora majestoso, mas agora abandonado e cheio de pó. Olhou para prateleiras vazias que apenas serviam de suporte para teias de aranha. Viu as armas que ficavam orgulhosamente penduradas nas paredes douradas e altíssimas jogadas num canto, enferrujadas e destruídas. E no centro do salão principal, de costas para a porta e em posição de meditação a pequena figura com uma longa barba branca, seu mentor.
- Venho de longe e procuro audiência com o sábio - ele disse, confiante.
- O sábio não se importa de quão longe vieste e não deseja qualquer contato convosco - ouviu de resposta.
- Mas mestre, por favor, preciso saber se há como evitar o que vai acontecer.
- Não há. Tu sabes. Agora parta.
- Ainda não. Preciso de aconselhamento e o arrancarei à força se necessário - disse isso e cerrou os punhos. Nunca havia se levantado contra seu mestre antes, mas o desespero o cegava, o medo o abalava e nada mais importava a ele.
- Ah, vejo que perdeste o último vestígio de sabedoria - riu o velho encarquilhado - Sabes bem que derrotaria você em um milhão de vezes que tentasse algo e ainda assim nada conseguiria de mim. Porém, pouparei-o de uma vergonha maior da que passará amanhã. Tens direito a três perguntas.
Confuso e envergonhado, Iluminado, abriu as mãos e respirou.
- O que houve com este lugar°
- Tua influência. Não destruíste as trevas, apenas as fez procurar abrigo. E aqui elas estão.
- Mas você não as expulsou? Por quê?
- Não há existência sem equilíbrio, Sou, também, feito de trevas, e delas me compadeço. Isso sem contar o fato que em nada elas podem me prejudicar - disse isso gargalhando vigorosamente. Logo depois se acalmou e prosseguiu - Claro, alguém que é apenas luz, como tu, não tem como entender. Mas o que parece destruído e abandonado a você apenas é mais um estado de minha vida, que assim como outros passará. Transitoriedade e renovação: assim a vida é, ao menos para a maior parte das pessoas.
Iluminado não tinha certeza se tinha entendido, mas só lhe restava uma pergunta, que ele preferiu fazer:
- Então não tem como evitar o que acontecerá? Mas não será meu fim, certo?
- Vou ignorar que há duas perguntas, estúpido pupilo - riu novamente - Não, você terá que enfrentar o monstro e cair nas garras dele. Tua morte, ainda, trará um período de conflito mais sangrento e horrendo do que o atual, e nada que farás irá evitar.  Também não será seu fim, embora a continuação de sua existência não mais seja essa, campeão da luz. Duvido que lhe seja aprazível.
Ainda confuso, porém sabendo que não mais tinha direito a perguntar, o guerreiro virou as costas e deixou a mansão. Queria, do fundo do coração, que seu mestre o chamasse pela última vez e dissesse para não ir, que iria protegê-lo. Na verdade, queria que qualquer um fizesse isso: as Senhoritas da dimensão R, mulheres guerreiras que ele havia ajudado uma porção de vezes. Os estranhíssimos Sonhos Abandonados, com suas cicatrizes e marcas das dificuldades que impediram sua realização e que precisaram de livrar da opressão dos Sonhos Realizados. As Sombras Diurnas, o enlouquecedor grupo de impossibilidades que foram aliados improváveis na Grande Batalha no Sol.
Ainda na Terra, Iluminado foi atrás de todos os grupos ou indivíduos que cruzaram seu caminho [mas sem revelar o que aconteceria]. Viu sua antiga rua, ainda com seus prédios baixos de tijolos aparentes e sua atmosfera opressora fazendo conjunto com o cinza e a chuva da cidade.

Ao ver que não conseguiria qualquer apoio ou abrigo para aquela noite, Iluminado resolveu retornar ao seu castelo. No caminho para retirar-se, bem na passagem para o primeiro deserto, havia um homem que parecia observá-lo. Iluminado sabia que ninguém naquele ramo de existência o veria caso ele não quisesse, e ele não havia se tornado visível para ninguém no momento. Porém ali estava um homem, de cartola, monóculo e fraque, o olhando fixamente.
Iluminado seguir seu caminho, enquanto o homem o seguia com a cabeça. Ao chegar na passagem, Iluminado olhou para o homem e perguntou:
- Está me vendo?
- E lhe ouvindo - respondeu o homem
- E quem é você?
- A pergunta real é quem é você - disse com um sorriso largo, mostrando todos os dentes - Não responderei isso a quem não sabe que é a si mesmo, tampouco para onde irá.
- Eu sei quem sou - disse-lhe - Sou o Iluminado, campeão da luz, protetor da vida, portador da Magia Verdadeira. Luto contra a Realidade Fria, que arranca sonhos e esperanças dos corações e transforma felicidade em cinzas. Trouxe a vitória à meus pares, evitei o assassinato de vários e lutei grandiosas batalhas. Vou agora para meu castelo, presente da rainha das Fadas em agradecimento por salvar o Sonho Puro, no Mundo-que-não-existe.
- Isso é o que você acha que é. Eu vejo um cadáver em formação. E esse cadáver irá se tornar um morto-vivo.
- Não sabe o que diz. Não irá me amedrontar. Quem é você? Quem o mandou aqui? Responda! - novamente, estava com medo e ofegante, e fechou os punhos.
- Relaxe, cadáver, não vai me tocar. Sou um fantasma, até para você. Agora, para as outras perguntas, posso dizer apenas que sou um fantasma de tempos futuros. Siga seu caminho e me verá ainda duas vezes em sua existência. E nada mais te digo.
Iluminado piscou e o fantasma desapareceu
.
Foi para seu castelo, onde passou a noite. No dia seguinte, dizem alguns relatos, enquanto ele estava agonizando nas presas gigantes de seu inimigo, parecia que falava com alguém.
Há ainda outros relatos de que seus servos mágicos o viram enviando uma carta e chorando.
O que se sabe é que o mundo nunca mais foi o mesmo, e que a Guerra não terminou com seu sacrifício.




terça-feira, 2 de junho de 2015

Ciclo de criação

Sentou na frente do computador e começou a escrever. Tinha uma vaga ideia de personagens e história, mas ia desenvolver conforme fosse digitando. Nem tudo tem que estar projetado desde o início, né?
Teria um reporter. Ele estaria fazendo uma reportagem qualquer, sobre a feira de carros de flores quando algo catastrófico aconteceria. Talvez uma queda de meteoro, com milhares de vítimas, destruição total de uma cidade [que seria a do repórter? Ou só uma questão de estar no lugar errado na hora certa?], o furor causado pelo impacto na humanidade, pessoas encarando sua mortalidade e vulnerabilidade, o protagonista testemunhando o horror das pessoas... Hm, não.
Ok, mantemos o reporter. Mas qual acontecimento então? O aparecimento, no meio da matéria, de um antigo rival. Durante anos, os dois tiveram uma competição acirradíssima em quem teria o maior furo de reportagem, numa cadeia grande de TV que apoiava essa disputa nem sempre leal para o posto de número 1. Agora, os dois estão cara a cara, vencedor e perdedor, para uma última disputa que decidirá de vez a rixa e... acho que não funciona também.
Vamos lá: a ideia do rival é boa. Uma alternativa é cair para o humor: os dois na verdade eram uma dupla, que há tempos faziam reportagens com grande audiência, mas por um desentendimento sobre cortes de cabelo decidiram seguir caminhos diferentes. Enquanto o reporter seguiu o estilo antigo, com uma linguagem mais simples e sempre no meio do povão, o rival sofisticou-se à beira do afetável, priorizando a imagem e linguagem rebuscada para ser tratado com credibilidade. Ambos, ao se encontrar, fazem comentários sarcásticos sobre seus trejeitos ["Ora, se não é o mauricinho das feiras de origami. O que faz aqui? Tem sashimi gourmet e ninguém me avisou?" "Claro que é o caipira sensacionalista que cobre festival de buchada. Me diz, algum desses carros é puxado pelo seu público?"] e entram nessa disputa, com os passantes sofrendo entre o fogo cruzado de comentários.
Fraco, mas um começo.
Então, e se na verdade fosse uma aventura? Um dos donos de carro sofre um ataque misterioso. Nosso protagonista o ampara no momento da morte, e recebe um mapa com a localização de um artefato secreto, que muito interessa forças militares e de outras nações. Seu adversário descobre isso, e oferece seus serviços a essas entidades, com propósito de roubar essa descoberta e ficar famoso. Segue-se uma corrida através de países, lutas em cenários exóticos, armadilhas, alianças e traições. E no final... Parece que já fizeram muitos assim.
Num futuro distante, a profissão do personagem principal tornou-se desnecessária. Talvez por apego [lembrança de parentes?] ele se mantém firme, tocando sozinho um jornal adaptado para as novas mídias mas que não consegue fazer frente para os robôs autônomos que captam e distribuem as novidades. Ele, sozinho e num lugar onde a rede de informações do futuro não alcança, testemunha um assassinato cometido por esses robôs, feito apenas para gerar uma manchete instantânea. Agora ele deve revelar isso para um mundo que considera isso impossível, e de quebra recuperar seu antigo amor que cuida desses aparatos eletrônicos produzido pela indústria de seu antigo rival de universidade.


Esse tinha potencial, pensou. Releu a sinopse, descartou as propostas anteriores e ajeitou a cadeira para escrever.
Após duas horas, não gostou do que escrevera e apagou tudo.
Desligou o computador e foi dormir.



sábado, 21 de março de 2015

Prólogo - A Chuva de Sangue

Tentava esconder o ferimento na lateral de seu abdômen. Sentia-se zonzo, e cada olhada em sua camisa branca ensopada de sangue lhe causava náuseas. Agora que achara um lugar seguro, foi conferir o estrago. Um talho profundo que ia de sua costela até pouco acima da bacia, limpo como só a mais afiada lâmina poderia fazer. E nada é mais afiado que aquilo que causara o ferimento.
Olhou ao redor, preocupado. Tentou ouvir se alguém se aproximava, farejar alguma ameaça no ar. Sem notar nada, resolveu se curar ali mesmo. Concentrou-se e colocou uma das mãos sobre o corte, que ainda vertia sangue em grandes quantidades.  Fracos lampejos azuis, como pequenos vaga-lumes, começaram a circundá-lo em espirais concêntricas e perfeitas. De olhos fechados, utilizando toda sua vontade para que aquilo que estava fazendo acontecesse e transformando em realidade seu pensamento, fechou o ferimento.
Agora estava completamente esgotado. Usara suas últimas forças para esse pequeno truque e não havia como correr mais. Encostou-se o melhor que pôde detrás de uma lata de lixo nesse pequeno beco em que entrara, tomando cuidado para manter-se o mais escondido possível. A chuva caía forte, lavando o ex-ferimento e diluindo o vermelho. Abraçando seus joelhos, respirou profundamente e chorou fracamente. Ele havia feito seu melhor, mas o adversário era forte demais. A guerra na qual ele era um bravo soldado queria agora tomar sua vida, e apesar de tudo, ele tinha apenas 11 anos. Ainda era muito cedo para o fim.

Um tremor em sua espinha seguido pelo som de um rosnar bestial que vinha de muito perto lhe trouxe de volta. Rapidamente, mas sem deixar de se ocultar, preparou-se para o pior. Cerrou os punhos, murmurou uma prece e ativou seu último recurso. Correram faíscas vermelhas pelos seus punhos, e ele aguardou. O som parecia afastar-se, depois aproximar-se mais, depois cessou.
A chuva constante não abafava seu arfar, ainda que ele se esforçasse para ser silencioso. Tremia de frio e de medo.
Talvez tivesse se livrado, pensou. Talvez o monstro tivesse se cansado da perseguição e ido buscar outra presa. Caçadores são implacáveis, mas não têm tanta predisposição para a busca. Não seria a primeira vez que alguém havia ludibriado algum deles escondendo-se bem.
Ao final desse último pensamento, a parede contra a qual a lata estava apoiada cedeu.
A criatura, que lembrava um cão diabólico, com dentes desproporcionalmente grandes e coberto de sangue e pus rugiu em sua cara, assustando-o. Com reflexos rápidos, o garoto acertou o punho no focinho do ser e moveu-se para a outra parede, se encurralando mas ganhando distância.
- Oras, isso me machucou, quem diria - disse o monstro - Uma pena que não o suficiente, pequeno.
Riu, com a pura intenção de mostrar sua superioridade e malícia.
- É, não pensei que fosse funcionar. Não contra o senhor dos caçadores, que de tão magnânimo prefere caçar algo pequeno como eu. Diga, como é ser tão poderoso e não aguentar nem me matar? - respondeu nervosamente, apenas para ver se conseguia algum tempo para pensar numa saída. Não acreditava que houvesse alguma, mas tinha que tentar.
- E achas que vive pois não tenho força para matar com um único golpe? Você? - e riu descontroladamente novamente - Vives apenas para minha diversão, e para que minha última bocada em seu pescoço tenha o agradável sabor do medo. Não há, em nossa existência, alguém em quem eu não possa cravar meus dentes e reclamar como minha presa. Agora, contudo, entedio-me com o falatório. Obrigado pelo jogo hoje à noite, pequeno.
A criança viu que não tinha escapatória. Lembrou do dia em que fora convocado para a Guerra, o dia em que abriu os olhos para a verdadeira natureza do mundo, A mágica fez de sua vida algo verdadeiro, não o simulacro existente em que todos vivem. O mundo era mágico! Quantas maravilhas eram possíveis, e era tudo tão fácil...
Agora, ao chegar o momento de cerrar seus olhos ele decidiu enfrentar com valentia. Não tinha mais como invocar qualquer truque, mas ele nascera com um dom. Aprendeu a dominá-lo apenas depois de aprender sobre magia, pois essa era a natureza da divinação. E teve ajuda de seus companheiros, seus irmãos em armas e mágica e por isso, fechou seus olhos e pensou neles.
Ao abrir seus olhos brilhavam azuis, num fenômeno curioso que fez a fera deter-se por um instante.
- Pois fique sabendo, matador. Seus dias estão no fim. A chama que destrói a escuridão já está entre nós, embora ainda não saiba. E como você sabe, ele irá te destruir e restaurar a magia nos corações. Será derrotado e humilhado, e todo o terror infligido por você e pela sua raça malévola será esquecido, e ninguém mais temerá as noites. Hoje é apenas o começo de sua derrocada.
- Oras, não é que o infame e fraco fala? Destruirei seu campeão, e terei sua cabeça em meu pescoço para que todos saibam quem é o verdadeiro dono do mundo!
- Não será assim. Não tardarei mais minha morte, mas garanto que terá um gosto amargo, ainda que não hoje. Venha, monstro, e comece a cumprir sua sina.
A fera, ao ouvir isso, ficou hesitante. Nunca antes uma presa falara algo assim, ou agira dessa maneira. Como esse fedelho não tinha medo de sua morte, oferecendo-se para o sacrifício assim?
Mas de maneira alguma se deteria. Com passos cada vez mais confiantes e terminando num horrível encarar, abriu a bocarra a envolveu a cabeça do pequeno. Antes de terminar a mordida, ouviu:
- O fim para o começo.


No dia seguinte, a chuva não havia cessado. O mundo não parou, e nem haveria de parar. Naquela mesma cidade, dois garotos tomavam seu café da manhã antes de ir para suas escolas, O pai falava nervosamente ao telefone, resolvendo assuntos de seu trabalho antes mesmo de tomar seu café.
A TV estava ligada, passando o jornal matinal. Um dos garotos prestou atenção apenas em uma notícia, mas teve que se levantar para ir antes de ver a matéria completa. Por algum motivo, que ele não saberia dizer, aquilo o acompanhou durante toda a ida para a escola. Ao soar o sinal do começo da aula, ainda podia ouvir o repórter dizer:
- Um corpo de uma criança decapitada e desfigurada foi achado no Beco Triangular pela manhã.



sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Sobre desertos e a Humanidade.

Estive bem por algum tempo, mas agora há muita tormenta. Veja, meu caro: não importa para onde se olhe, o deserto tomou conta.
Ainda há um oásis ou outro, porém a cada dia a desolação cresce, tornando inabitável lugares antes agradáveis. Paisagens de areia e tempestade, onde nada há de crescer fora seres terríveis e vorazes, que devorarão sua carne e tomarão sua vida por pouco. O pó será o destino de quem se atrever, junto com seus sonhos e realizações. De nada valerão suas obras; seus projetos celestiais ou profanos, de pequena ou grande escala, feitos de heroísmo e de covardia serão subjugados e esquecidos. Tornar-se-ão mais grãos na aridez infindável, e não serão mais conhecidos pelos seus semelhantes.
Haverão também aqueles que se perderão. Não se desmancharão para unir-se ao deserto, mas sim vagarão sem rumo por entre suas dunas e caminharão lado a lado com as bestas, devorando aqueles que adentrarem enfrentarem os raios e a areia. Estes serão os amaldiçoados, com seus olhos vazios e almas corrompidas e derrotadas. Farão mal pior que o deserto, trarão tristeza mesmo a seus entes queridos, desfazendo-os gradativamente para então alimentar os animais da tempestade, pois serão agora movidos por isso. Incapazes de se felicitarem por si ou de regozijarem-se na alegria do próximo, farão de tudo para torná-los poeira, obtendo assim combustível para si.
Agora falarei de quem ainda vive à margem do deserto. Vivendo ao lado da desolação, há o contraste necessário para percepção da real condição do lugar onde se está; porém, por algum motivo, não se faz essa comparação. Questionamento vão é aquele em que se diz em qual lugar da luz é mais brilhante, em qual região o ar é mais leve e quais as vantagens de se possuir mais bens. Uma vez em que é possível viver e ter seus sonhos e projetos, irrelevante é aonde se está; tampouco deve ser incentivado o pensamento de que é necessário sempre ter mais, para aumentar a distância entre si e o próximo. É preciso entender que mais vital é evitar o aumento de população do deserto. É compreender que é mais preciso ajudar um semelhante à beira da areia, ou algum que está caindo no canto dos malditos, aqueles para quem uma palavra de real preocupação e de solidariedade farão a diferença. Esqueçam suas mesquinharias e rixas egoístas. Façam de seus lugares menos salões vazios e mais salas abertas aos viajantes, aos que estão para se perder, ao que ainda não se fixou e se leva como a folha no vento. Sejam mais felizes com o próximo sendo alegrado; tenham desprendimento material e de alma; dedique um momento para seus queridos, e um minuto para os desconhecidos.
Sejam, de forma sincera, felizes e gratos por não estarem em risco de afundarem na areia e de se perder em dunas, e não sejam coniventes ou lenientes ao ver alguém se desmanchando no pó.
Pois, apenas assim, terão total certeza de que seu tempo de vida, por mais curto que seja, foi proveitoso.
Logo, essa é a resposta para sua indagação sobre como me sinto sobre a humanidade, meu caro. Faça disso um guia, desconsidere se quiser. Mas o alerta foi dado: apenas aqueles que o levarem em conta terão tempo para se corrigir e não tornar-se mais um grão de areia no deserto.

Dos escritos perdidos do Sábio Longínquo.



quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Linha 11 - Coral

- Não empurra, porra!
- Não sou eu, tô sendo levado também!
- Não tá vendo que tá cheio cacete?
- Mas não sou eu, tão me empurrando também!
- Então passa o esporro e para de empurrar!
- Não tem como, não to nem com meus pés no chão!
- E quem é o infeliz que está fazendo isso?
- Alguém que realmente merece a palavra, mas não eu!
- Putz, esse treco vai sair e eu não to me segurando
- Eu também não estou, mas sei lá, se quiser se apoiar...
- Porra, espertinho você hein? Não, prefiro ser encoxada pelo peão mais suado do trem!
- Isso é fácil, ele tá atrás de você agora.
- Como assim? Que porr- Ah, seu filho da puta..
- Hahahahaha!
- Porra, eu me assustei agora, pra que mentir?
- Sabe, acho que você devia falar menos palavrões. Ficam meio deslocados em você.
- Ah, nessa vida de fodido, nesse trem do caralho cheio pra diabo pode ter certeza que é justificado.
- Concordo, mas ainda assim acho.
- Tanto faz. Eu queria pelo menos estar me segurando em algo.
- A minha oferta continua de pé.
- E eu ainda prefiro abraçar um cacto. Você se acha muito malandro né?
- Prefiro me ver como gentil. De qualquer forma, algo me diz que na próxima estação você muda de ideia.
- Quanta prepotência hein? Pode deixar que eu me viro.
- Fique à vontade.
- Segurando a porra da porta essa merda desse trem não vai mesmo
- Não sou eu, to do seu lado no meio do trem.
- Eu não disse que era você, estava apenaaaaaaARGH
- Mas que coisa, você quase caiu quando o trem saiu! Gostaria de se apoiar em algo, minha cara?
- Vá tomar no cu, engraçadinho.
- Poxa, que gratuito! Essa foi pesada hein.
- Tá tá, sem choro. Esse maquinista também tá achando que tá levando gado, só pode.
- Há semelhanças, creio eu. Mas gado não ouve funk sem fone de ouvido, que eu saiba.
- De verdade, você tá achando toda essa porra engraçada né?
- Eu diria conformismo cínico.
- Falando assim parece doença. Vai se tratar e se cura dessa espertice também.
- Acho que é incurável. Assim como seu stress permanente.
- Muito pelo contrário, só fico assim nessa lata de sardinha. Sou muito calma e controlada.
- Fácil de imaginar. Então você tem Stress Permanente em Trens.
- Quem não tem?
- Eu. Tenho Conformismo Cínico, lembra?
- Você tem é cabeça oca, de verdade.
- Ora, isso foi uma afirmação com um quase sorriso? Quem diria que um desses surgiria por aqui.
- Pois é, estou me curando, olha só.
- Que beleza, hein. Aliás, eu se fosse você me segurava...
- Tava indo bem, mas afundou. Tinha que dar uma de gostosãããAIAIAI
- Eu avisei..
- Porra, essa gente empurrando pra descer, dá tempo viu! PUTA QUE PARIU, alguém pisou no meu pé, filhos da puta!
- Então, né.
- Para com esse sorriso agora!
- Eita, que que eu fiz?
- Olha, você tá achando muito engraçado mas quase fui pisoteada e levada aqui.
- O que não aconteceria se você tivesse feito o que? Ah tá.
- Ah, então a culpa é minha?
- Não disse isso.
- E de quem é então?
- Não sei. Estou apenas oferecendo ajuda.
- Sei...
- É verdade. Sinceramente, não estou tão desesperado a ponto de ficar chantageando uma garota por contato físico.
- Vai saber. De repente seu estilo espertinho-malandrão não faz muito sucesso e agora você quer faturar uma...
- Garanto que não é o caso. E apenas para informação, meu estilo faz bastante sucesso.
- Ui, mexi onde não devia é?
- Não, minha cara. Apenas reforçando um pequeno ponto.
- Sei sei. Imagino quão pequeno seja essa ponto...
- Fique à vontade para imaginar. Imagino que você queira reconsiderar minha oferta agora...
- Tá chegando na estação? Tá bom, dá um espaço aqui.
- Opa, todos.
- Você pode levantar o braço? Agora vou passar por baixo, dar a volta [amigo, me dá licença por favor? Obrigada] eeee pronto!
- Isso aí, estamos prontos.
- Hmmm não estamos chegando em estação alguma né?
- Depende de quão próximo é o seu chegando.
- Sei sei...
- Quem sabe a viagem fica melhor que o destino?
- E agora você entende de destino?
- Fica meio difícil não entender do destino literal que eu falava, mas na real, talvez agora eu entenda um pouco de destino.
- Como assim?
- Eu posso te explicar...

E assim foram.


Raiva nº3

Eu quero gritar minha fúria
Quero fincar minha espada no coração da terra
Ver meu dano localizado sendo localizado em tudo
Amargar com meu ódio a areia e o sol
Quero me afastar da ignorância
Dar vazão em minha bile negra
Ser agente da transformação maldita
Mostrar a cor da decepção e o cheiro de destruído
Me banhar em sangue inimigo
Atirar a primeira, a última pedra
Sobre os escombros, apenas minha gargalhada
Minha insanidade, meu risco à sociedade
O fim de tudo por minhas mãos
Eu quero gritar minha fúria
Mas não para ressoar pelos campos
E destruir salões pelos cantos
Ruir palácios com torres imponentes
E mostrar a podridão inerente
Sem me segurar,
Nenhuma trava, nem consciência nem medo de consequencia
E ser o leão na savana
Quero descarregar no primeiro que eu ver
Quero rasgar gargantas e peitos
E quero mais, muito mais
Enquanto estiver de pé
Caiam todos aos meus
E nunca mais guardar rancor
Vingança na hora, troco sem ser frio
Eu quero batalhas sujas e sem heróis
Tiros nas costas, execuções covardes
Por hoje eu quero morte.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Uma inadequada história - parte 1

Trechos resgatados do diário do Dr. Hans Schucrutz


15 de Fevereiro
Minhas viagens me trouxeram até a Suécia, onde repouso depois de minhas malfadadas expedições em busca de provas para os eventos descritos nas antigas lendas sobre o "Apocalipse das Borboletas". Reitero, como descrito no registro anterior, que a falta de apoio de meus pares acadêmicos foi a principal causa para o fracasso, visto que minha crença inabalável no acontecimento é motivo de piada.
Enfim, tendo isso como causa, acabei por ficar nesse país de clima agradavelmente gélido. Acabei por conhecer alguns interessantes residentes e, mais importante, um interessantíssimo bar conhecido por vender a vodca mais forte de toda Escandinávia. Tenho passado alguns dias e noites [que nessa estação são praticamente indistinguíveis] nesse simples estabelecimento, ouvindo e contando histórias.

5 de Março
Depois de certo tempo frequentando o Lundgren's, taberna registrada no escrito anterior, e de já ter todos os benefícios relativos à posição de cliente regular, contei a história de minhas expedições atrás do Apocalipse. Pela primeira vez em tempos, não recebi nenhuma forma de chacota ou risos implícitos ou explícitos. Ninguém me olhou com condescendência ou questionou sobre abusos na infância ou uso de entorpecentes. Não me chamaram de louco com diploma, não tentaram cassar minha licença. Todos me olharam impressionados. Aliás, não todos; a atendente e proprietária da casa, Srta. Johansson, pareceu-me incomodada mas não por supostas idiotices que estava dizendo. Cada detalhe que eu revelava sobre a história ela me olhava como se eu tivesse falado algo que não devia.
Ao terminar meu relato um de meus amigos locais, Frey Hein-Hagen, começou a falar que aquilo que eu havia descoberto era apenas superficial, mas foi interrompido por uma sessão grupal de tosses fingidas e canecas sendo derrubadas das mesas de propósito. A Srta. Johansson o escoltou para fora do bar dizendo que ele já tinha bebido demais, embora tivesse tomado apenas suco de tomate. Achei todas aquelas atitudes estranhas, mas um viajante experiente como eu tem que saber a hora de indagar sobre algo e a hora de calar-se. Isso foi há 4 dias atrás. Pela cidade agora sou alvo de olhares desconfiados e sussurros depois que eu passo. Será que, ao contrário do que me pareceu anteriormente, não levaram minhas crenças ao ridículo? Frey não apareceu mais no bar, e ninguém sabe me responder por onde ele anda.
Levei esta situação até onde pude. Ontem esperei todos saírem e, quando estávamos sós, resolvi interrogar a Srta. Johansson. Tomando um gole de coragem [que, estranhamente, pareceu vodca sueca] perguntei o que ela sabia sobre o assunto citado. Ela riu nervosamente e negou qualquer conhecimento, desde o paradeiro de Frey até borboletas sugadoras de cérebro, mas de forma pouco convincente.
Eu lhe ofereci dinheiro, ameacei, implorei e até tentei seduzi-la, mas meus encantos são por demais refinados para uma pessoa de tão baixo patamar intelectual, ao que parece. Saí do bar deixando a promessa de voltar.
Cheguei em meu quarto de hotel e encontrei-o completamente revirado. Nada foi roubado, mas encontrei um bilhete. Li, guardei-o no bolso, fui até a recepção e eles me disseram que nada foi visto, mas que talvez as câmeras tivessem gravado os responsáveis. Suspeito de algo incomum acontecendo, mas admito que não possuo evidências conclusivas.

6 de Março
Escrevo isso de dentro de um quarto no qual sou mantido refém. Não faço ideia da razão pela qual me capturaram, tampouco qual motivo os levou a me chutarem em diversos locais de meu corpo. Entraram em meu quarto na madrugada e ordenaram a rendição, algo que fiz sem sequer pestanejar. Talvez eu tenha gritado, mas isso é procedimento padrão nessas ocasiões, não? E me debati, apenas para compor a cena que se espera ao prender um luminar da sapiência como eu, mas nada fiz além disso. Que culpa posso ter se acertei a canela de um dos sequestradores enquanto segurava no colarinho do outro implorando em nome de minha mulher e filhos [não que eu os tenha, obviamente, é apenas mais um componente cênico necessário para compor a dramaticidade do momento]? Culpa tem eles de, apesar de arrombarem a porta, terem sido tão pacíficos em seus pedidos gentis para que eu os acompanhasse. Como não sabem como lidar com um tão ilustre prisioneiro?
De qualquer forma, cá estou eu escrevendo neste caderno que, em minha epifania involuntária ao comprá-lo escolhi, é pequeno. Digo que essa é uma vantagem pois ocultá-lo não foi uma tarefa difícil, ainda que em uma cavidade corporal que eu prefiro omitir do relato.
Já consegui entender, de uma maneira trôpega, que vão me interrogar. Sobre o que? Resta-me cuidar de meus ferimentos e uma vez mais ocultar esse caderno, para que não o peguem em revistas.

7 de Março
Admito, estou intrigado com o comportamento desses sequestradores. Novamente, fui tratado com uma cortesia completamente incabível na atual circunstância. Fui levado sem qualquer tipo de algema ou corda para o local, tive um jantar farto e variado [com uma única crítica, o pato com laranja estava seco demais, fato esse que fiz questão de levar ao chef] e sentei-me numa confortável poltrona de couro para responder perguntas. Após berrar e dizer que apenas sobre meu cadáver teriam qualquer resposta, tive como reação apenas pedidos para que eu me acalmasse e sorrisos simpáticos.
Que bando de amadores! Tive que novamente tomar a iniciativa, tentando agarrar meu interlocutor desconhecido [nota: esperar ele se apresentar da próxima vez] e dizer que nada sabia [ainda que só tivessem perguntado meu nome, se não me falha a memória]. Fui agredido covardemente, pelas costas, com um tapa que ainda deve estar marcado próximo ao refúgio deste caderno. Foi me atirada uma cópia de meu artigo, questionada qual a razão de minha pesquisa, qual me interesse e, por fim, o porquê eu queria impedir o Holocausto das Asas Leves. Essa última questão manteve-me absorto por uns instantes, de olhar fixo no cálice de Cognac em minhas mãos. Um questionamento absurdo, obviamente, mas algo nessa sentença emitida parecia não fazer sentido. Apenas após ser levado de volta à minha cela, consegui entender o que me incomodava: "Holocausto das Asas Leves" não era um bom nome para o evento, por isso que o preteri em favor de "Apocalipse das Borboletas". Como aquele homem tão bem apessoado teria escolhido o outro? Não me recordo de tê-lo escrito uma vez sequer, de tão abominável que me pareceu, então que razão o faria preferir o outro?
Enfim, deixarei o questionamento de lado e deitarei-me em minha cama de prisão, com lençóis de algodão egípcio de 550 fios e travesseiros de pluma de ganso das Antilhas. Nunca pensei que seria tão difícil manter-me são sob tão severas condições! Ao me puxarem fora da sala de interrogatório, enquanto fazia meu mise-en-scéne, tive a impressão de ver uma colossal asa azul celeste entrando pela janela. Aliás, embora não tenha descrito, ao ser carregado para meu cárcere atual, tive a mesma impressão na mesma sala. Do que se trata? Devo investigar mais a fundo, e para isso prolongarei minha estadia aqui. Decerto será fácil, afinal quem poderia rivalizar com meus artifícios? Repousarei agora e amanhã certamente terei novidades para relatar.



quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Um "até mais"

Houve o momento de se dizer;
Então o suspense do ar preso nos pulmões
Sem se tornar vocal
Um monte de propostas
Para se dizer
Dentes cerrados, mente aberta
Sentimentos complexos para expor
Palavras difíceis para descrever
Muito a dizer, pouco tempo
Decisão em breve instante
Na velocidade de um pensamento
Que desaparece na indecisão
E rói por dentro
E remói em silêncio
Não completa em fundação
Agora só uma ideia
Mais forte, intensa
Uma saudade quase plena
Felicidade, apenas
Amizade que faz falta
Daquela que só acontece de tempos
Em tempos
O sorriso não esconde
Mas a palavra disfarça
Mantém um pequeno controle
Com um discreto olhar
E a curta ideia
"Muito bom te ver, hein"

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Hollow

As vezes passava o dia sem falar com ninguém. Guardava para si seus pensamentos, o que causava um tumulto em sua cabeça. As palavras não emitidas brigavam entre si, buscando a supremacia e ascensão na enorme fila que se formava para sair.
Fora de sua mente, o mundo passava. E nada ele falava. Não que se tratasse de um tímido, tampouco era uma pessoa sem opinião. Muito pelo contrário, o que ele mais tinha era ideias sobre o mundo ao redor. Sobre a catraca do ônibus. Sobre a música do Badfinger. Sobre a forma de gelo que ninguém nunca enche. Sobre a política externa do Cazaquistão. Mas todas elas eram presas por seus dentes, e por mais que sua língua tentasse expressá-los eles morriam ainda em suas entranhas.
Talvez não fosse o melhor jeito de viver; toda a complexidade humana, ainda que artificial, produzida por reações de elementos químicos e impulsos elétricos que se fazem acreditar por coisas sérias, não foi feita para ser aprisionada. A linguagem provavelmente se desenvolvera por isso: para que os demônios internos de cada pessoa pudessem ser exorcizados de forma simples. A inexpressão nos força a enfrentar o pior dos inimigos em batalha, o eu mais verdadeiro e inatingível. Essa luta desmonta por dentro, revolvendo até a parte mais profunda do que nos faz humanos. Pois sim, o verdadeiro sentido de humanidade só é atingido após nos expressarmos, após purgar a alma de seus demônios e renascer em sentido, ideia e espírito.
Agora, mais ideias se formavam sem sair de dentro dele. Uma das possíveis razões era a falta de platéia. De que vale dizer o que não haverá ninguém para ouvir? Ainda que mais pessoas estivessem em volta, não necessariamente elas estariam ali para ouvir algo. Ainda que estivesse conversando com alguém, nada indica que ele seria ouvido. Diz-se também que a comunicação só termina na mente do receptor, com ele completando o que foi emitido com sua própria bagagem e visões. Então de que vale emitir ideias que permanecerão incompletas? De enviar mensagens trôpegas, ocas e perdidas?
Mas não era essa a razão.
A razão, pura e simplesmente, era porque ele tinha medo. Apenas assim.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

May the road rise...

Ao acordar em um bem passar de dias esquecidos
Agora sim, tudo faz sentido
O caminho aberto na névoa está concluso
Ela levantou-se, lavou-se e olhou-se
Havia algo diferente nesse espelho há alguns segundos
Sem mais remorso, sem mais arrependimento
Sem mais culpa, nem quem culpar
Você por você agora
Assim chega,
De se prender a rochas instáveis
Achar dificuldade em algo que merecia ser simples
Ver a felicidade alheia
De não ter alguém que se importe
Como aquela vez em que contamos uma história
Ou de acreditar na fábula de duas pessoas juntas
Ainda te magoa a injustiça
Permanece
Mas naquele transporte lotado
Na rotina insuportável
Nos dias que se passam
Foram se os momentos de pesar
Ela não se arrepende
Não é exatamente feliz
Mas afinal de contas, o que é?
Relâmpagos não caem duas vezes no mesmo lugar
É hora de voltar pra casa
Chamaram aquela garota e ela, obediente como qualquer anjo,
Foi



sábado, 22 de setembro de 2012

Dia desses

- Ah, mas você pode tentar de novo.
Disse aquilo com uma cara tão inocente que me desanimou de responder. Eu tinha discutido a tarde inteira, não aguentava mais. Resolvi deixar passar.
- Ih olha lá.. você fez errado de novo. Bom tudo bem, vamos tentar outra vez.
A mesma cara inocente, eu novamente tentando manter a paz interior. Não vale a pena, já me estresso demais, essas pessoas não entendem o que eu passo.
- Poxa, de novo! Tô achando que você não tá se esforçando, assim fica difícil né? Vamos de novo.
Agora sorrio meu sorriso mais amarelo, mostrando os dentes nervosamente. Tomara que ela entenda agora meu sinal de que isso está me irritando. Não bastasse o trânsito, a chuva, o chefe... É tão difícil assim entender o meu lado? Tô fazendo de boa vontade algo que ninguém quis fazer, pra que ficar exigindo mais?
- Aiai...Quer deixar quieto? Não precisa fazer se não quiser, a gente tenta dar outro jeito...
Tomo isso como ofensa pessoal. E como um desafio.
- Mas não precisa, sério... Você pode ficar tranquilo, eu me viro depois
Não, não e não. Isso é a mesma coisa que esfregar minha inaptidão na minha cara. Eu posso fazer isso sem problemas, não tá vendo no meu sorriso largo e confiante?
Eu podia ter dito isso, mas novamente deixo estar. Recuso elegantemente a porta dos fundos mostrada, faço um gesto magnânimo de deixa comigo e volto à tarefa requisitada. Contenho um riso matreiro pelo fato dela me subestimar. Todos fazem isso, mas eu sou mais. Claro que não mostro isso o tempo todo, não há a menor necessidade disso, logo todos acham que opero nivelado para baixo. Não podem estar mais enganados.
- Hmm agora parece que está indo bem... Isso, continua, vai... Putz! Bom, essa foi quase lá. Vai tentar de novo?
Claro que vou. As pessoas não estão acostumadas a ver gente que tem potencial pra fazer mais e mais vezes, assim como eu, então acham que poucos fracassos vão deter qualquer um. Idiotas. O suor em meu rosto mostra como a persistência toma forma. Levanto, respiro, dou uma risada irônica e espero que ela pesque a dica.
- Olha só como você está, acho que vou deixar de me aproveitar de você.
Mas ela não pesca, óbvio.
- Tanto suor e cansaço assim, vai acabar passando mal. E não precisa de tudo isso, eu me arrumo depois...
Agora lhe mostro um olhar duro, mas determinado. Eu vou fazer de novo sim, quer você queira ou não. Quem sabe quando parar sou eu, não se atreva a discordar.
- Tá tudo bem? Sei lá, por um momento pareceu que você estava passando mal.
Deuses..
- Ahn, de novo? Mesmo? Olha, não precisa...
Interrompo com um gesto de basta, e volto à minha posição de labuta. O suor desce mais forte por meu rosto, mas isso só vai fazer minha vitória mais doce. E quero ouvir as desculpas por me subestimar saindo de sua boca, o arrependimento ao qual serei superior e dispensarei com elegância e garbo. Mal posso esperar, tudo ao alcance de minhas mãos. Heh.
- Agora vai hein, só mais um pouco...
Calada, não tá vendo meu esforço aqui?
- Mais um pouquinho...
Ô cacete... Será que se eu esmagar a garganta dela ela fica quieta?
- Isso, isso, vai, vai!
Chega porra, fica quieta! Quando isso terminar eu vou bater nela. Bem forte, no meio da cara dela. Tá mais do que merecendo, não tem a mínima noção, não é possível. Não basta tudo o que eu passo, tenho que aguentar a cidadã berrando na minha orelha. Um tapa, direto, na cara. Só isso.
- Isso, finalmente! Puxa, não é que você conseguiu mesmo? Pensei que você não ia trocar esse pneu nunca!
Largo a chave de roda no chão. Lugar errado. Tinha que ter enfiado na cabeça dela.
- Tava quase chamando o guincho, tava tão difícil pra você! Bem, agora tá trocado, não estraguei minhas unhas e tá tudo certo! Obrigado viu! Agora deixa eu ir que eu tô atrasadérrima!
Pensei em gritar pra ela esperar, fazer ela ouvir poucas e boas e agradecer meu esforço de forma mais justa. Mas deixa pra lá, já me estresso com tanta coisa... deixa estar. Podia ter me dado seu telefone, pelo menos, até que era bonitinha, mas só isso também viu...